limpador horizontal

Quando a americana Mary Anderson (1866-1953) inventou o limpador de para-brisas em 1903, recebeu muitas críticas. A principal delas argumentava que os movimentos pendulares dos limpadores eram incômodos e poderiam até hipnotizar os motoristas. Apesar disso, mais de meio século se passaria até que alguém tentasse fazer algo melhor. No fim dos anos 1950, os engenheiros Béla Barényi (1907-1997) e Karl Wilfert (1907-1976), de Stuttgart, na Alemanha, criaram um limpador de para-brisas com varredura linear que foi simplesmente chamado de “Limpadores de para-brisas para veículos motorizados” e cujo objetivo era:

a provisão de um arranjo para remoção eficiente da água da chuva ou da neve do parabrisa de um veículo motorizado. Outro objetivo da presente invenção é permitir um limpador de para-brisas que permita a remoção da água da chuva ou da neve da cobertura. Ainda outro objetivo da presente invenção é a provisão de um arranjo de limpador de para-brisa que amplie a visibilidade em veículos motorizados.

Ok, já ficou bem claro que os inventores estavam insatisfeitos com os clássicos limpadores oscilatórios — “durante o inverno a neve não pode ser suficientemente removida”, acumulando-se a ponto do limpador parar de funcionar. Assim, em vez de se preocuparem com um suposto efeito hipnótico, Barényi e Wilfert estavam aborrecidos com a ineficiência dos movimentos semicirculares, que cobriam apenas uma pequena área do para-brisa. Além disso, eles viam desvantagens no “fulcro que normalmente era arranjado acima ou abaixo do parabrisa” passando “através da cobertura ou carroceria”, o que, dado o contato constante com a água poderia se tornar um ponto de corrosão numa época sem carrocerias galvanizadas.

Os inventores também se incomodavam com a “cavidade do capô do veículo” que abrigava a base da haste, onde “a água ou neve que o limpador coleta pode se congelar durante o inverno”. Por isso mesmo, além de um grande limpador horizontal, que seria movido verticalmente, eles também propunham um canal de drenagem da água recolhida.

perfil-limpadorA inovação registrada na patente nº. 2.880.444, emitida em 7 de abril de 1959, parecia tão boa que havia sido adotada pela Daimler-Benz, proprietária da Mercedes (os dois engenheiros trabalhavam na montadora alemã). Por isso mesmo, houve algum entusiasmo na imprensa da época. A edição de fevereiro de 1960 da Science and Mechanics — de onde excepcionalmente tiramos as ilustrações do invento, já que as quatro figuras da patente eram supersimplificadas — apresentava o “Limpador Para-cima e Para-baixo [que] Limpa o Para-brisa Inteiro”.

Como todos sabemos, esse limpador horizontal nunca pegou. Um limpador tão grande não era elegante e muito menos prático (imagine ter que trocar enormes lâminas de borracha). Além disso, a lâmina subia e descia através de dois trilhos fixos — que, se eu entendi bem o conceito, são roscas sem-fim. Convenhamos, ter duas varetas espiraladas espetadas bem diante do para-brisa o tempo todo deve ter sido mais estorvante do que o movimento rítmico de limpadores que poderiam ser escondidos com muito mais facilidade quando desligados. Mesmo que as hastes fossem telescópicas (como as barras de um amortecedor) haveria problemas: o atrito seria muito grande e o ruido também. Se você quisesse limpar um para-brisa levemente empoeirado, era provável que conseguisse riscá-lo por inteiro.

Apesar disso, Barényi, que trabalhou para a Mercedes entre 1939 e 1972, não era estúpido. Ele tornou-se bastante conhecido no setor automotivo como o criador do conceito de segurança passiva — como carrocerias e colunas de direção deformáveis, células de sobrevivência e capotas removíveis mais seguras. Barényi teria cerca de 2000 patentes registradas (122 nos Estados Unidos). Obviamente, algumas tinham que ser patéticas.

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