Seu avião caiu no mar e você sobreviveu em uma ilha deserta em companhia de uma bola de vôlei chamada Wilson? Você foi um sobrevivente do vôo 815 da companhia aérea Oceanic Airlines e descobriu-se em uma ilha cheia de mistérios (e até ursos polares)? Bitch, please!

Poderia ser pior, muito pior! Lembre-se dos navios negreiros. Eles também naufragavam. Um negreiro chamado Utile — que ainda por cima era ilegal — foi a pique em 31 de julho de 1761. Não muito longe do local do naufrágio ficava uma ilhota minúscula perdida a umas 200 milhas [321km] a leste de Madagascar, conhecida apenas como Île de Sable [Ilha de Areia].

Depois de esperar seis meses na ilha, os tripulantes e traficantes sobreviventes montaram uma jangada e partiram. Antes disso, porém, eles prometeram que, assim que fosse possível, viriam resgatar os 60 escravos que deixaram para trás.

Era de se esperar que eles voltassem para recuperar a “mercadoria” humana e não ficar no prejuízo. Mas, como eram traficantes ilegais, não cumpriram a promessa — talvez não voltassem nem mesmo se fossem comerciantes de escravos legais. Deixados ao léu, os cativos lutaram durante 15 anos para manter uma fogueira acesa e para sobreviver numa área desolada de meros 0,776 km².

“Encontramos evidências de onde eles viveram e o que eles comeram”, disse o arqueologista Max Guéroult ao Independent em 2007. “Encontramos utensílios de cozinha de cobre, reparados vez após vez e que devem ter se originado dos destroços do navio.” Para sobreviver, os abandonados construíram abrigos com coral e areia, um forno comunal e alimentaram-se de tartarugas e aves marinhas.

Como era de se esperar, a maioria dos escravos náufragos acabou perecendo. A certa altura, 18 fugiram em uma embarcação improvisada — mas não se sabe se eles tiveram algum sucesso.

Ironicamente, a salvação veio com a chegada de outro náufrago. Em novembro de 1776, um marujo francês foi o único sobrevivente de um naufrágio naquela área. Com os destroços, ele conseguiu construir uma jangada e partiu para as Ilhas Maurício, levando com ele três homens e três mulheres que encontrou na Ilha de Areia. Quando a corveta La Dauphine chegou para levar os outro sete (ou melhor, as outras) que restavam, havia entre os sobreviventes uma avó, uma mãe e um neto de 8 meses que havia nascido na ilhota.

Após o resgate, o governador de Île de France declarou os náufragos livres, pois haviam sido capturados ilegalmente. Ele também adotou a família do bebê, que foi batizado com o nome de Jacques Moise — um sobrenome que significa Moisés.

Atualmente, a ilhota ainda está sob domínio francês e é conhecida como Tromelin, nome do capitão do navio que resgatou os náufragos. Tromelin tem apenas uma pista de pouso e uma pequena estação meteriológica, mas é desabitada.

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