http://www.google.com/patents/US634887

No finzinho do século XIX, as bicicletas estavam em alta e Samuel G. Goss, de Chicago, achou que só faltava ter música para os passeios se tornarem mais agradáveis. Como ainda não havia rádio nem gramofones portáteis — muito menos mp3-players —, a única solução que Goss encontrou foi tranformar as próprias bikes em instrumentos musicais:

Para este fim minha invenção consiste em um quadro destacável fixado no interior do quadro da bicicleta e uma série de cordas vibratórias estacadas através do dito quadro destacável, uma pluralidade de martelos pressionados por molas pivotados ao tal quadro e arranjados para vibrar as ditas cordas, um eixo rotável, um cilindro no dito eixo, dotado de meios para acionar os referidos martelos, uma rosca-sem-fim ligada ao tal eixo, uma haste oscilante [rock-shaft] montada transversalmente no quadro destacável, quadro sem-fim na tal haste oscilante carregando uma engrenagem adaptada para engrenar-se com a rosca-sem-fim, [e] meios para rotacionar a tal engrenagem a partir do pedal da bicicleta.

Mecânica à parte, o objetivo do invento é mais simples e fácil de entender: “prover uma combinação de bicicleta e instrumento musical com a qual o ciclista pode deleitar a si mesmo e à sua vizinhança imediata com um acompanhamento musical enquanto passeia.” Na prática, Mr. Goss juntou a bicicleta e outra coisa típica da belle époque: a caixinha de música [1].

Não sabemos se o inventor chegou a construir sua bicicleta melódica (o que é uma pena), mas a ideia deve ter realmente encantado o pessoal do U. S. Patent Office. Tanto que, em 17 de outubro de 1899, foi registrada sob nº. 634.887. Também não sabemos que trilha sonora Goss tinha em mente quando lhe surgiu a ideia, mas é possível que tenha sido a famosa cançoneta de Henry Dacre, A Bicycle Built for Two (1892). Mais conhecida como Daisy, Daisy, teria deixado HAL-9000 emocionado (ou não).

Embora a ideia seja adorável, não deixa de ter seus defeitos. Se você quisesse trocar a melodia, teria que carregar os cilindros acionadores e precisaria ter algum conhecimento de mecânica. Em sua defesa, Goss poderia dizer que o quadro é destacável, o que facilitaria a troca — mas nesse caso, seria necessário carregar quadros inteiros para ter alguma variedade musical.

Ao contrário das caixinhas de música — que usavam lâminas metálicas como elemento vibratório —, as cordas da bicicleta de Mr. Goss podem desafinar ou até mesmo se romper. Para piorar, como não há uma caixa de ressonância, é pouco provável que a “vizinhança imediata” se deleitasse com uma melodia ciclística. Com o trânsito cada vez mais ruidoso na virada do século, isso seria ainda mais difícil.

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[1] Crianças, se vocês não sabem o que é uma caixinha de música, vejam uma em ação.

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