Concepção artística de “Daedalus”, astronave interestelar proposta pela British Interplanetary Society. (imagem: icarusinterstellar.org)

Se depender de alguns entusiastas liderados por Mae Jamison, a resposta é sim. Não são entusiastas de garagem: um programa recém-lançado, chamado 100 Year Starship Program, é uma iniciativa conjunta de respeitáveis organizações como a British Interplanetary Society, a americana Icarus Interstelar, Inc. e o próprio SETI. E, em maio, a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA), — agência americana de projetos do Departamento de Defesa — anunciou que vai financiar os trabalhos do 100YSS. Ou, pelo menos, o começo dos trabalhos. Mas, com tantos problemas relacionados — questões humanas, políticas, financeiras e tecnológicas — será possível realizar uma viagem interestelar dentro de um século? O entusiasmo pelo 100YSS não seria mais um fogo de palha astronáutico?

Escolhida como porta-voz do programa, Mae Jamison foi a primeira afro-americana a ir para o espaço, a bordo do ônibus espacial Endeavour, em 1992. Vinte anos mais tarde ela abraçou uma iniciativa que se define como “Uma inclusiva e audaciosa jornada que transforma a vida aqui na Terra e além.” “A primeira palavra é inclusiva”, disse Jamison ao Discovery News. “Inclusiva implica uma perspectiva sociocultural; implica uma perspectiva transdiciplinar. Quer dizer que faz diferença quem está a bordo, em termos de aspecto, gênero, geografia, origem nacional… todo mundo precisa estar envolvido e nós precisamos prestar atenção a isso.”

Apesar do discurso vago, não podia deixar de haver algum entusiasmo. Espera-se que o programa seja capaz de unir o planeta em torno desse objetivo e que o prazo centenário seja cumprido da mesma forma que a chegada do homem à Lua levou uma década. No entanto, o 100YSS não é um programa oficial do governo americano, nem das Nações Unidas. Falta-lhe substância. É uma bela iniciativa, mas parece-me que não vai muito longe. Basta lembrar o passado do próprio SETI, que inicialmente também recebeu apoio de uma agência oficial (a NASA) mas quando o assunto foi tratado pelo Congresso americano, o financiamento foi rapidamente cortado. E a Sociedade Interplanetária tem ótimos planos, mas nunca se arriscou a executá-los pela óbvia falta de dinheiro.

Uma saída seria apostar no crowdfunding, mas para isso seria necessário ter planos (inclusive de custos) bem-definidos desde já. Espera-se que as primeiras ideias sejam apresentadas de 13 a 16 de setembro num simpósio em Houston. Segundo o 100YSS e a DARPA, o evento deverá ser anual. Ainda assim, com um prazo tão dilatado, é difícil prever que rumo as coisas podem tomar. Os próprios custos do projeto podem crescer ao longo das próximas década, inviabilizando o prazo previsto. Mesmo que, ao longo dos próximos 100 anos, seja possível economizar o suficiente para mandar uma nave, digamos, a Alfa Centauri, nada garante que isso realmente aconteça. Pra piorar, é possível que muitos investidores neguem seu apoio pelo simples fato de que não estarão mais aqui para ver os resultados.

Há ainda todas as barreiras de uma viagem interestelar: é humanamente possível? Em pouco mais de meio século de “exploração espacial” nossos astronautas não passaram mais do que 438 dias no espaço. A mais longa distância viajada foi de 401.056 km, cobertos pela tripulação da desastrada (ou não) Apolo XIII. Nós nem sequer colocamos os pés em outro planeta do nosso próprio sistema! É justo que já comecemos a sonhar com as estrelas?

Também temos empecilhos morais, sociais e políticos: nada impede que o programa seja adotado por um ou diversos governos como forma de desviar a atenção da opinião pública de crises mais sérias e imediatas, como a ambiental. Em parte, foi exatamente isso que aconteceu com os programas espaciais de soviéticos e americanos. Enquanto brigavam entre si no sudeste asiático e em outros rincões subdesenvolvidos, EUA e URSS brincavam de corrida espacial. Por mais louváveis que tenham sido seus êxitos científicos, sempre haverá quem se pergunte se os recursos investidos nos programas espaciais não seriam mais úteis em terra firme.

Não é que projetos tão longos sejam impossíveis de ser realizados — diversas catedrais europeias consumiram séculos de trabalho. Talvez também não nos faltem investidores abnegados, prontos a pagar por algo que poderão não ver. O problema está mesmo na organização dessa empreitada interestelar, ainda indefinida. Também parece difícil realizar um intento tão grande a partir de organizações descentralizadas e que não têm, por exemplo, o mesmo poder da Igreja Católica ao longo dos séculos ou do governo americano dos anos 1960.

Não custa sonhar, no entanto. E não há melhor maneira de descobrir se dá pra fazer ou não do que tentando. Porém, mais do que novas tecnologias ou dinheiro, vamos precisar de boas doses de sabedoria. Haja o que houver, o século que se abre vai nos trazer escolhas cada vez mais difíceis. Não podemos nos dar ao luxo de nos precipitar de maneira romântica ou inconsequente.

Mais informações no site oficial do programa: 100yss.org

Em “Viagens no Tempo e no Espaço”, 8º. episódio da clássica série Cosmos, Carl Sagan apresenta e discute alguns projetos de naves interestelares feitos pela British Interplanetary Society — como a Daedalus da imagem de abertura. No episódio, que também é dedicado à Relatividade, Sagan também explica os efeitos relativísticos de possíveis viagens interestelares.

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