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Em 1936, o escritor e jornalista norte-americano E.B. White relembrava suas experiências com o Ford T, que entre nós foi chamado Ford Bigode:

Durante minha associação com Modelos T, self-starters não eram um acessório comum. Eram caros e vistos com suspeitas. Seu carro vinha equipado com uma manivela de serviço e a primeira coisa que você aprendia era como obter resultados. Era um truque especial e até que você o aprendesse (geralmente com outro proprietário de um Ford, mas às vezes por um apavorante período de experimentação), você poderia muito bem ter levantado o toldo. O truque era deixar o botão de ignição em off, posicionar-se diante da cabeça do animal, puxar o afogador (era um pequeno fio que saía pelo radiador) e dar à manivela uns dois ou três movimentos indiferentes. Daí, assoviando como se pensasse em outra coisa, você retomaria o assento do motorista na cabine, ligaria a ignição, voltaria para a manivela e, pegando-a pelo baixo curso [down stroke], daria um rápido giro até enchê-lo. Se esse procedimento fosse seguido, o motor quase sempre respondia — primeiro com umas poucas explosões dispersas, depois com um tumultuoso tiroteio, o que você checava ao correr para o banco do motorista e retardar o acelerador. Muitas vezes, se o freio de emergência não estivesse puxado completamente, o carro avançava sobre você no instante em que a primeira explosão ocorria e você teria que segurá-lo apoiando seu peso contra ele. Ainda posso sentir meu velho Ford farejando-me na guia, como se procurasse por uma maçã no meu bolso.

Elwyn Brooks White (1899-1985) foi co-autor de The Elements of Style, manual de redação de língua inglesa ainda hoje muito usado, e de livros infantis, como Stuart Little. Suas recordações sobre o fordeco estão em Farewell, my lovely [Adeus, meu amado], ensaio publicado na edição de 19 de maio de 1936 da New Yorker.

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