Carros voadores, casas aéreas, jetpacks, robôs domésticos, calçadas rolantes, elevadores pneumáticos. Tudo isso ainda parece estar no futuro, mas é provável que você conheça essas coisas desde a infância. Como isso é possível? Você se lembra de George Jetson e sua família? Há exatos 50 anos, os Jetsons abriam as portas do futuro na TV americana. Mas o que houve com aquele futuro?

Aquele futuro, curiosamente, morreu bem cedo. A série original, com 24 episódios e agora cinquentenária, teve apenas uma temporada de duração. Isso é surpreendente, considerando que os Jetsons surgiram num contexto em que o futurismo, especialmente nos Estados Unidos, ainda estava bem vivo e era bastante otimista. Pouca gente sabe que a animação é tão antiga. Na verdade, ela teria sido rapidamente esquecida se não tivesse sido ressuscitada nos anos 1980.

Nem tudo era perfeito na época em que a animação foi criada. O começo dos anos 1960 foi sim, uma época de otimismo tecnológico e esperança voltada para o futuro. Mas foi, igualmente, o auge da Guerra Fria e do temor da ameaça — tecnológica, inclusive — comunista. Em 1962, no mesmo ano em que os Jetsons estrearam, John Glenn era o primeiro americano a chegar ao espaço. Menos de um ano mais tarde, o fiasco da invasão da Baía dos Porcos quase levou o mundo ao apocalipse nuclear. Os americanos tinham sentimentos ambíguos em relação ao futuro: otimismo e terror.

Autor do guia oficial de The Jetsons, Danny Graydon resumiu bem a situação para o Paleofuture: a estréia “coincidiu com esse período da história americana no qual havia uma esperança renovada — o começo dos anos 1960, a época pré-Vietnã, quando Kennedy estava no poder. Havia algo muito atraente na ideia de uma família nuclear de valores honestos que vivia num futuro distante. Acho que isso ressoava no zeitgeist da cultura americana da época.”

Quão distante era aquele futuro que aparecia na telinha? O desenho, em si, não deixa isso claro. Os Jetsons dizem apenas que vivem no século XXI. Mas releases e reportagens da época situam a família por volta de 2062. O que aquele futuro mostrava? Nada muito diferente dos recém-finados anos 1950: nada de lutas sociais ou disputas políticas. Tudo que aquela família de classe média queria era consumir e ter os confortos da vida moderna. Nesse ponto, não é um futuro muito diferente do mundo de hoje.

Independente disso, porque uma animação como essa teve apenas uma temporada? Porque a América, ironicamente, ainda estava tecnologicamente presa nos anos 50. Com um futuro brilhante e colorido, os Jetsons foram produzidos a cores para a ABC. De fato, a série animada foi a primeira atração colorida da ABC. Um programa do futuro com uma tecnologia do futuro!

Só que a maior parte do público americano não pôde perceber isso. Em 1962, menos de 3% dos lares americanos tinham televisores coloridos. Pior ainda, o show sofreu duplamente: com a falta de cores e com a concorrência. Seu concorrente mais próximo era o Walt Disney’s Wonderful of Color. Disney havia se mudado da ABC para a NBC em 1961 justamente para poder transmitir sua série a cores. O mago da animação também ignorou o público restrito, mas, graças à fartura de material e ao nome Disney, sua série continuaria até 1969.

Além de abrir mão de Disney para depois bater de frente com ele, a ABC cometeu outro erro: deixou a cargo das retransmissoras a decisão de exibir o novo show a cores ou em preto-e-branco. A maioria, claro, optou por continuar monocromática. Segundo o New York Times de 23 de setembro de 1962, apenas as afiliadas de Nova York, Chicago, Detroit, San Francisco e Los Angeles garantiam a transmissão a cores dos Jetsons. E só quem tivesse uma TV a cores nessas áreas veria o show, com seu futuro colorido e brilhante, tal qual havia sido planejado pela Hannah Barbera.

Se essa diferença ainda não te convenceu, dê uma olhada entre as imagens de abertura do primeiro episódio, “Rosey the Robot” e num anúncio em P&B da atração:

Fica óbvio que perde muita graça. E, pior, parece antiquado mesmo para aquela época.

A própria trama também é antiquada. Mas isso se deve à inerente falha humana de qualquer futurologia. O problema é que nem mesmo uma previsão do futuro feita só pra crianças consegue se desprender dos preconceitos de sua época. Os Jetsons não eram uma família do futuro e sim do passado (ou do presente, na época de lançamento). Não há nenhum episódio, por exemplo, em que George deixa o carro de lado e vai para o trabalho a bordo de um ônibus flutuante ou de um aerotrem monotrilho magnético. Ao contrário das esposas de sua própria época, Jane não trabalha fora. Jude não deixa de aparecer como uma adolescente fútil. Não há sequer um personagem negro.

Isso significa que George, Jane, Jude, Elroy, Astro e Rose foram uma família conservadora, misógina e racista? É claro que não. Eles foram apenas extrapolações da época de seus criadores. Foram, apesar das falhas, um retrato de um futuro ideal que todo mundo gostaria de viver.

[via Paleofuture]

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