“Após vinte anos de luta encarniçada, os marcianos escravizaram a Terra, até o surgimento de um líder que leva os terráqueos à revolta…” Sob o título Planetas em Guerra, e com um enorme robô empunhando uma arma na capa, tem-se a impressão de que se trata de um livro com todos os clichês da Ficção Científica. Ou pelo menos é o que parece… Quando, porém, se nota quem é o autor – Poul Anderson –, é melhor esquecer os preconceitos e lembrar que não se julga um livro pela capa.

*** Esta resenha pode conter spoilers. Ou pelo menos é o que parece… ***

Talvez o problema seja mesmo a edição brasileira. Publicada em 1974 pela Nova Época Editorial, a tradução de The War of Two Worlds é apresentada como um “romance”, embora esteja mais para “suspense de FC”. E, apesar da capa, não há robô algum na história.

O que deve surpreender o leitor é que, logo no início da história, São Paulo aparece como um cenário importante. Não se trata, porém, de uma adaptação forçada, que troca Nova York pela Paulicéia. São Paulo é mesmo a capital escolhida pelos marcianos que acabam de dominar a Terra. A escolha talvez tenha ocorrido por exclusão, já que as outras metrópoles globais parecem ter sido riscadas do mapa por cogumelos nucleares. Mas também há indícios de que na Terra pré-escravizada o Brasil era uma potência espacial.

Apesar da importância, Sampa não é o cenário principal. A história apresentada é um diário improvisado num caderno por David Arnfeld. Ex-soldado-espacial, Arnfeld retorna à Terra em 2043, após passar a maior parte de sua vida em guerra com os marcianos – seres altos, negros, de olhos dourados, com uniformes de couro impecáveis e uma cultura extremamente militarista e espartana.

Em sua Nova York natal, Arnfeld encontra uma terra arrasada. A América do Norte, como a maior parte do planeta, parece ter regredido a um primitivismo pós-apocalíptico (e meio feudal): com as indústrias destruídas, os habitantes dos núcleos urbanos migram em massa para o campo. Com invasores marcianos por toda parte, dificuldades de transporte e comunicação, o clima é de total desconfiança entre os humanos. Agora é cada um por si.

Catherine Hawthorne – Kit para os íntimos – é quem acolhe Arnfeld. Ex-agente secreta e ex-funcionária da ONU, ela era esposa de outro combatente espacial que tombou em serviço e que é o pai de sua filha de três anos, Alice. Kit, como é de se esperar, é uma mãe feroz que busca vingança. Ela convence Arnfeld – um militar legalista, resignado e arrependido – a se rebelar.

Kit, Arnfeld e a pequena Alice formam um improvável bando de guerrilheiros, que ainda conta com Sermi Regelen Dzu Coruthan, a.k.a. Reggie. Reggie é um delegado marciano; simpático, educado e culto, mais parece um gentleman inglês. Juntos, eles descobrem que a guerra Terra-Marte foi provocada por forças ocultas estranhas. Eles se dão conta disso depois que capturaram um prisioneiro(a) metamórfico(a) e passam a ser caçados pelas forças armadas marcianas. Ou pelo que parecem ser militares do Planeta Vermelho…

Quando acabam cercados em um rancho de pesca no interior da Dakota do Norte, Arnfeld começa a escrever seu diário. Enquanto isso, monta uma missão maluca que envolve prisioneiros, armas de desintegração e um duplo suicídio. Ou pelo menos é o que parece…

Embora seja um verdadeiro Rambo da FC, Arnfeld não é um brutamontes acéfalo. E a história não é apenas sobre um bando de guerrilheiros maltrapilhos, famintos e com uma criança pra cuidar. As tais forças ocultas não são resultado da paranoia de um ex-militar e uma ex-espiã. Elas existem mesmo – e vieram de fora do Sistema Solar. Os poucos que já chegaram infiltraram-se nos governos terrestres e marcianos, lançando perfidamente um planeta contra outro. Dividir para conquistar. Ou pelo menos é o que parece…

Com tecnologia tão avançada que (como diria Clarke) parecem mágicos, os seres de Sírius (é de lá que eles vêm) são, na verdade, exilados sem pátria em seu sistema solar. Vítimas de preconceitos por suas formas metamóficas, os sirianos buscam apenas um planeta para chamar de seu. Descobrem um sistema solar onde podem ter literalmente o melhor de dois mundos – se conseguirem exterminar seus habitantes.

Apesar de parecer mais um livro de Terra vs. Marte, Planetas em Guerra toca em temas profundamente importantes: guerra total vs. guerrilha (nada mais atual, em vista das estratégias contra as invasões americanas na Ásia), conspiracionismo vs. legitimidade. O que se revela mais importante, porém, é o sentimento de pertencimento, o patriotismo, a necessidade (forçada ou não?) de ter uma nação, um território, um domínio. Se os marcianos parecem uma mistura de guerreiros espartanos com gentleman imperialistas e vitorianos, os sirianos podem ser comparados aos sionistas. Não parecem entender que só perderam seu lugar no universo porque se retraíram no passado e, hoje, não sentem remorso algum ao exterminar inimigos mais fracos.

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