É uma experiência deveras desagradável ter que descer de sua aeronave com um páraquedas que se recusa a abrir. Tão desagradável que você nem volta para contar a história. Ainda que um páraquedas possa ter um sistema de reserva para casos de emergência, isso não impede uma falha dupla. Muito antes que o paraquedismo se tornasse um esporte relativamente popular e seus problemas se tornassem uma preocupação geral, Hermann W. Willians inspirou-se na natureza para criar um Safety Drop Device for Aviators Use [Dispositivo de Queda Segura para Uso de Aviadores]:

A invenção relata um novo e útil aperfeiçoamento na forma de um dispositivo de segurança que se usa para chegar ao solo a partir de um aeroplano ou outro veículo aéreo, especialmente em caso de perda de controle do aeroplano ou outro veículo aéreo. O páraquedas comum, do tipo guarda-chuva, que precisa ser aberto a partir de sua forma comprimida ou dobrada para permitir uma descida segura às vezes falha em abrir no momento crítico. O objetivo da presente invenção é prover um dispositivo de pouso seguro que não requer qualquer abertura preliminar, mas que está sempre operante para uma descida planante tão logo seja anexado ao corpo do usuário.

Natural de Boston, Massachussets, o próprio Mr. Williams admite que seu invento aéreo “lembra algo em sua forma como as sâmaras [frutos alados] de […] alguns tipos de bordos.”, segundo o texto da patente 1.799.664 [disponível apenas em pdf], apresentada em 24 de fevereiro de 1930 e aprovada em 7 de abril de 1931. Segundo Williams, o funcionamento é o seguinte:

[…] o usuário colocará os ganchos ou laços do arreio sob seus braços ou passará seus braços através dos laços para para situá-los sob seus ombros. Após percorrer uma curta distância do avião, a asa começará a rotacionar em um plano em ângulo reto com o eixo de rotação do cabeçote, de acordo com as correntes de ar e ele descerá gradualmente, numa descida planante ou flutuante até solo, em vez de uma queda vertical direta. A pressão do ar contra a face inferior da área da asa retardará a descida. O movimento giratório da asa em seu próprio plano, ou seja, o giro da asa ao redor do eixo de rotação do cabeçote estabilizará a descida de modo que o passageiro possa permanecer em posição vertical durante a descida, como mostrado pelas ilustrações.

Nada muito complicado, portanto. Apenas uma asa presa a uma base esférica, que gira ao redor de um eixo alinhado com a coluna do aviador/usuário. Não há sistemas mecânicos ou propulsores. Trata-se apenas de um mecanismo de planagem. A asa ou “lâmina [blade]” deve ser feita de “material leve e resistente”, mas Williams não informa nem sugere qual material seria esse. É muito provável que fosse a mesma estrutura de madeira com lona usada nas asas dos aviões biplanos ainda muito comuns na época — embora o alumínio aeronáutico que começava a ser utilizado também pareça uma opção viável. Plástico também seria uma boa ideia, mas está fora de questão porque seria uma solução anacrônica: o plástico só se tornaria suficientemente leve e maleável nos anos 1950.

Ter um sistema de segurança pronto para uso é uma boa ideia, mas isso significa que a sâmara aeronáutica de Williams necessitaria de manutenção constante. A base esférica giratória deveria ser constantemente lubrificada para poder rodar livremente. Também deveria ser limpa, ficando longe de poeira e de partículas que possam eventualmente obstruir a rotação da esfera. Ter uma asa travada durante uma emergência por falta de lubrificação ou por excesso de sujeira seria tão desastroso quanto um paraquedas que não abre. Paraquedas também precisam de manutenção, é claro, mas ela é mais simples e mais barata.

Outro empecilho para seu uso é o grande tamanho. Não há um tamanho determinado na patente, mas se a ilustração estiver numa escala correta, parece razoável supor que cada álula deveria ter uma envergadura mais ou menos equivalente à altura do usuário. Por isso, seria difícil padronizá-lo. Por outro lado um paraquedas precisa ter apenas uma área mínima, que independe do tamanho do paraquedista.

Além de ser muito mais leve e compacto, um paraquedas é mais simples: basta colocar a mochila, pular e puxar uma cordinha. Não é difícil imaginar, por exemplo, os tripulantes de um pequeno biplano saltando de paraquedas em caso de emergência: provavelmente, eles já partiriam com a mochila nas costas. Mas onde iria ficar uma asa rotatória num caso semelhante? Presa à fuselagem da aeronave, já que não haveria área de carga? E a prontidão necessária?

Mesmo em aviões muito maiores, como os nossos modernos jatos, que transportam centanas de passageiros, não há espaço suficiente para levar um paraquedas para cada passageiro — a não ser que levássemos a bagagem em um segundo avião. Haveria ainda menos espaço disponível caso o sistema de salvamento individual fosse uma asa rotora.

Por fim, não fica muito claro como controlar o sistema. Se necesário, um paraquedista é capaz de desviar, com relativa facilidade, de obstáculos como linhas de alta tensão ou de escolher entre um pouso em terra ou no mar. Mas seria difícil ter um controle similar em um sistema que apenas plana, sem propulsão própria. A queda poderia ser lentamente suave, mas o pouso em local seguro não seria garantido.

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[via Neatorama]

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