O que acontece quando se junta vingança e fetiche por pernas? Provavelmente, algo assim:

“Em certa noite, uma pessoa veio ao nosso escritório e pediu para ver o editor do Lancet. Ao ser introduzido em nosso santuário, ele colocou um saco sobre a mesa, do qual, em seguida, ele retirou uma bela e simétrica extremidade inferior, a qual igualava-se à “melhor parte de Atalanta” e que evidentemente pertencera a uma mulher. “Eis!”, disse ele, “Haverá algo com essa perna? Já viste alguma mais bela? O que deveria ser feito com o homem que a cortou?” Ao receber a explicação dessas interrogações que nos foram postas, viemos a saber que a perna era da esposa de nosso visitante noturno. Ele se acostumara a admirar o pé e a perna da senhora, de cuja perfeição, parece-nos, ela era plenamente consciente. Uns poucos dias antes [daquela noite] ele atiçara a ira dela e ambos tiveram uma violenta querela. Após a discussão, ela saiu de sua casa, dizendo que se vingaria dele e que ele jamais veria novamente os objetos de sua admiração. A primeira coisa que ele soube dela é que ela havia sido paciente no Hospital **** e teve sua perna amputada. Ela declarou aos cirurgiões que sofria de uma intolerável dor no joelho e implorou pela remoção de seu membro – um pedido que os cirugiões atenderam e, assim, tornaram-se instrumentos de sua absurda e torurante vingança contra seu marido!”

De A Collection of Remarkable Cases in Surgery [Coletânea de Casos Notáveis em Cirurgia] (1857), com citação do Lancet de 1850. Paul Fitzsimmons Eve, autor da coletânea, comenta: “O caso nos parece altamente improvável, mas percebam que o Lancet é o responsável por sua publicação.”

Seria possível uma vingança tão cruel? Ainda mais numa época em que a anestesia engatinhava e, sem antibióticos ou procedimentos antissépticos, a morte de amputados era comum? Os médicos teriam sido assim tão ingênuos? E como o marido teria conseguido arranjar a perna? Seria assim tão fácil sair de um hospital inglês carregando um saco com uma perna nas costas?

Mesmo que não seja verdade – e tudo indica que não é – o jornalista que escreveu (ou inventou) essa história deveria ter tentado a carreira como autor de contos de terror.

Porém, não seria surpresa se o inventor da história fosse o próprio Mr. Eve. O caso aparece apenas no fim do capítulo dedicado às amputações de sua coletânea – e pode muito bem ter sido criado apenas para inchar mais um pouco seu volumoso livro de 850 páginas. Mesmo citando o Lancet, Eve não dá o número da edição. Uma busca nos arquivos da publicação médica britânica não dá resultados relevantes.

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