Mudança de listras é tendência em Jupiter! [Imagem: NASA/IRTF/JPL-Caltech/NAOJ/A. Wesley/A. Kazemoto/C. Go]

Como todo gigante gasoso, Júpiter não tem uma aparência fixa. Mas, de uns anos para cá, o planeta-rei do nosso sistema solar anda experimentando frequentes mudanças de visual. Se parece que ele está tentando chamar a nossa atenção, é porque talvez haja um bom motivo: Júpiter anda apanhado demais dos asteroides ultimamente. Em vez de ficar com hematomas ou olhos roxos (o que afinal dá na mesma), o que se altera em Júpiter são os tons e a intensidade e o tamanho dos cinturões de nuvens que podemos observar.

A descoberta dessa relação entre quedas de asteroides e mudanças meteorológicas no ambiente jupteriano foi anunciada por Glenn Orton, pesquisador sênior do Jet Propulsion Laboratory, da NASA. Durante a apresentação, feita em uma conferência da American Astronomical Society, Orton explicou que as mudanças vistas em Júpiter são de uma escala global. “Nós já observamos algo assim antes”, declarou o pesquisador, “mas nunca com uma instrumentação moderna que nos permitisse entender o que estava acontecendo. Outras mudanças não se viam há décadas, e algumas regiões nunca tiveram a aparência que têm agora. Ao mesmo tempo, nunca vimos tanta coisa caindo em Júpiter. Agora estamos tentando compreender porque isso tudo está acontecendo.”

Profissionais e amadores

Com a colaboração de Leigh Fletcher, da Universidade de Oxford; Padma Yanamandra-Fisher, do Space Science Istititute (de Boulder, Colorado); Thomas Greathouse, do Southwest Research Institute (de San Antonio, Texas) e de Takuyo Fujiyoshi do Telescópio Subaru, situado no Havaí, Orton tirou fotos de Júpiter em infravermelho entre 2009 e 2012 e comparou-as com imagens de alta-definição em luz visível — até fotos amadoras, mas bem-feitas, foram usadas na pesquisa. O time de astrônomos percebeu que, entre 2009 e 2011, houve enfraquecimento e retorno de uma faixa amarronzada logo ao sul do equador, a South Equatorial Belt (SEB). Não muito longe dessa faixa, eles observaram que o North Equatorial Belt (NEB) ficou mais esbranquiçado em 2011 — tão claro quanto não se via há um século. Em março desse ano, o NEB voltou a escurecer.

Com dados da NASA e do telescópio nipo-havaiano, a equipe descobriu que houve um aumento da espessura nas camadas de nuvens mais profundas, mas não nas mais superficiais. No caso da faixa do sul, a SEB, ambas as camadas de nuvens engrossaram antes de tudo ficar num tom bem claro. Os dados em infravermelho também permitiram a observação do que os pesquisadores chamaram de brown barges (ou “balsas marrons”), pequenas nuvens mais escuras que provavelmente são caracterizadas por “ar” descendente e seco.

Orton et al. também procuravam observar hotspots, áreas azul-acinzentadas, situadas ao longo da fonteira meridional do NEB. Esses pontos eram interessantes porque parecem ser as regiões mais secas e claras do planeta. Geralmente, são pontos onde emergem camadas profundas de nebulosidades. Esses pontos desapareceram entre 2010 e 2011, mas voltaram a ser visíveis a partir de junho desse ano, junto com o escurecimento do NEB.

Mais golpes ou mais testemunhas?

Jupiter tem sofrido mais impactos nos últimos anos. Ou não. (A imagem da esquerda foi feita por um astrônomo amador do Texas) [Imagem: NASA/IRTF/JPL-Caltech/G. Hall/University of the Basque Country]

Sendo um planeta gigante, Júpiter tem uma gravidade voraz. Isso significa que o maior planeta do sistema é o que mais apanha. De uns anos para cá, alguns impactos pequenos foram tão intensos que puderam ser observados aqui da Terra. Três incidentes, com objetos de no máximo 15 metros de diâmetro, foram registrados desde 2010. Mas Orton esclarece que esses impactos mais recentes foram pequenos para causar as mudanças observadas. Eventos maiores e com efeitos mais duradouros ocorreram em 1994 e 2009.

Mas será que a órbita de Júpiter anda meio atravancada? Ou será que o sistema solar está passando por uma área mais “suja” do espaço, obrigando o grandalhão ruivo a nos defender? Talvez não seja nenhuma coisa, nem outra. Por enquanto, a explicação mais simples é que esse aumento no número de impactos em Júpiter seja apenas resultado de melhores condições de observação. Embora Júpiter esteja tomando uma surra incomum nos últimos anos, Orton acredita que isso “tem mais a ver com uma ampliação do quadro de habilidosos astrônomos amadores que miram seus telescópios em Júpiter e ajudam os cientistas a ficar de olho no nosso maior planeta.” “É exatamente essa coordenação entre a comunidade astronômica e os amadores que desejamos fortalecer”, conclui Orton.

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