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O roubo de uma pasta cheia de documentos ultra-secretos (ou até mesmo os controles para detonar uma guerra nuclear) é o começo típico de um filme de agente secreto. Como evitar isso? Carregar os documentos na cueca? Transportar os papéis via pombo-correio? Mandar tudo via e-mail? Não, não e não! Desde 1989, Isaac Soleimani tem a solução. Seu Remotely controlled briefcase alarm [Alarme para pasta controlado remotamente] é, obviamente,

Um sistema de alarme para uma pasta. A pasta é esquipada com um receptor de rádio ajustado para receber sinais predeterminados (por exemplo, codificados) de um radiotransmissor remoto. A pasta carrega uma sirene, acoplada ao receptor, para dar um sinal audível de um roubo ao ser acionada remotamente pelo receptor. A pasta também pode ser equipada com uma alça que pode ser usada normalmente, mas que poder ser feita para se separar da mala sob controle remoto. Um modo de operação adicional leva a sirene a manter silêncio até que a pasta seja removida para uma distância predeterminada em relação ao transmissor, sendo que os sinais predeterminados seriam continuamente recebidos até que a pasta esteja além do alcance do transmissor. Esse modo de operação pode ser usado para soltar a alça quando a pasta esteja além do alcance do transmissor.

Isaac Soleimani, natural de Jamaica, Nova York [1], deve ter assistido muitos filmes de espionagem (e de comédia) antes de fazer seu pedido de patente em 02 de julho de 1987. Seu sistema — basicamente uma mala com alarme — foi aprovado pelo U.S. Patent Office em 14 de fevereiro de 1989, sob nº. 4.804.943 [pdf].

Soleimani reconhece logo no começo da patente que sua ideia não é original. Malas ou pastas com alarme já haviam sido patenteadas desde 1895. Segundo o inventor, que lista nove exemplos históricos dessa tecnologia, esses antecedentes “tipicamente incluem um alarme ou similar no interior da pasta que será ativado pelo uso ou liberação de um botão ou alavanca ou pela abertura da mala.”

Não que as versões mais antigas sejam menos patéticas mais geniais. Ao menos a primeira tem o vigor da orginalidade (no sistema mais antigo, antes ainda do rádio, uma campainha era acionada por meio de molas assim que a bagagem fosse aberta). Acionar um alarme com a mala nas mãos do ladrão não vai fazê-lo desistir do roubo. Pelo contrário: aí é que ele vai fugir pra valer.

Essa consideração óbvia não impediu que Soleimani apresentasse um sistema de contrução e uso bastante simples:

De acordo com a prática dessa invenção, a pasta é equipada com um alarme remotamente ativado. Caso a pasta seja tirada da posse de uma pessoa autorizada, o proprietário pode ativar remotamente, através de sinais de rádio codificados, o sistema de alarme de modo a iniciar a operação da sirene no interior da pasta. O transmissor do controle remoto e o circuito do receptor podem ser de qualquer projeto convencional e o raio de operação pode ser limitado, de poucos pés a algumas centenas de jardas. […] A versatilidade do sistema de alarme é tal que pode ser instalado numa pasta durante a fabricação ou pode ser adaptado a pastas já existentes.

Para os menos escandalosos o alarme pode ser  a liberação de uma “fumaça inofensiva”. O toque de comédia, porém, fica por conta da alça. Soleiman propõe que “a alça possa ser destravada por uma fechadura movida a mola  em que, ao ser ativada por um arranjo de pistão e solenoide, a trava seja solta, causando assim a separação da alça da pasta, com o resultado de que a pasta cai no solo, deixando o ladrão apenas com a alça [na mão].”

Se deixar o ladrão de mãos abanando com apenas uma alça já lhe parece divertido, Soleiman ainda pensou num sistema que faz o contrário: “leva a alça a estalar ou apertar a mão do ladrão, causando assim dor e induzindo-o a largar a pasta.” Uma mala sem alça ao apertar de um botão! Uma alça mordedora! Está mais para Austin Powers do que James Bond.

Como já ficou claro na descrição do funcionamento, o alarme de pastas de Soleimani teria alcance limitado. Esse é o pior problema. Se o seu ladrão for ágil o suficiente, não importa o quanto você aperte o botão do controle remoto — ele nunca vai fazer o alarme soar,  soltar a fumaça e/ou a alça. E se você usar a alça que prende os dedos, tanto pior. Aí é que vai ser difícil tirar a mala das mãos do meliante…

O fato de pensar em fumaça inofensiva como alarme mostra que o inventor pensou em oferecer um sistema que possa ser usado em ambientes públicos — como aeroportos. No entanto, esse é o maior ponto fraco do invento. A fumaça inofensiva não vai fazer o bandido desmaiar, como era de se esperar. Se a mala ficar sem alça, nada impede que seja retomada pelo ladrão ou por um comparsa. Por fim, como é que uma mala cheia de mecanismos e equipamentos eletrônicos passaria pela segurança dos aeroportos de hoje? Quem não garante que pudesse ser confundida com uma bomba e fosse capturada pela polícia?

Melhor mandar seus papeis secretos via e-mail (encriptado, é claro).

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[1] Jamaica é um bairro do distrito de Queens, em Nova York. Segundo a Wikipedia, a denominação não tem nada a ver com a ilha caribenha. O nome do bairro é uma corruptela de jameco, que significa castor na língua de uma das tribos nativas da região. Ironicamente, durante muitos anos esse bairro foi um dos mais afro-americanos do Queens e hoje tem muitos imigrantes (inclusive jamaicanos).

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