http://www.google.com/patents/US6419111

Um dos trabalhos dos inventores é encontrar aplicações práticas para descobertas científicas. Ou pelo menos tentar. Tome-se, por exemplo, a topologia, com suas curiosas Fitas de Möbius e Garrafas de Klein. São apenas curiosas e talvez divertidas, mas, na prática, não servem para nada.

Porém, Erl E. Kepner acha que a Garrafa de Klein seria mais apreciada e compreendida se fosse transformada numa banal caneca de café. Ou melhor, em um One-sided beverage vessel [Vaso de bebida de lado único]:

Um vaso de bebida (10) cuja construção lembre uma típica caneca de café exceto pelo fato de que a asa oca (16) do vaso (10) é oca em uma das extremidades da asa oca (16) conectada ao recipiente (12) em uma localização normal: na parte inferior do recipiente (12), com a asa oca (16) passando então por sobre a borda do recipiente (12) na boca (14) do recipiente (12), com a outra extremidade da asa oca (16) conectada ao recipiente (12) no fundo do recipiente (12). A parte oca da asa oca (16) extende-se através de suas conexões com o recipiente (12) tanto no lado inferior quanto no fundo do recipiente (12). Essa configuração permite uma comunicação entre o ambiente externo do recipiente (12) do vaso de bebidas (10) através da asa oca (16) no fundo do recipiente (12) e o conteúdo do recipiente (12) através da asa oca (16) conectada ao lado inferior do recipiente (12). O vaso de bebidas (10) resultante é muito semelhante à “Garrafa de Klein” e permite a remoção do conteúdo do recipiente (12) pela aplicação de um vácuo parcial perto do fundo do recipiente (12), sugando assim o conteúdo do recipiente através da asa oca (16) e ejetando o conteúdo para fora da asa oca (16) no fundo do recipiente (12).

Note-se que Mr. Kepner foi muito esclarecedor em seu resumo, repetindo, além das palavras, números. Uma síntese mais simples para a patente 6.419.111 [pdf] seria mais ou menos assim: “Uma caneca cuja asa é oca, com uma das pontas soldadas em sua posição habitual e a outra, após saltar sobre a borda desemboca no fundo da dita caneca, obrigando o usuário a chupar seu conteúdo pelos fundos da mesma.” Os objetivos (e “vantagens”) da invenção patenteada em 16 de julho de 2002 são os enumerados a seguir:

(a) prover um vaso de bebida que satisfaça os objetivos típicos de um vaso de bebida enquanto oferece uma aparência curiosa e única;
(b) oferecer um exemplo do mundo real de um objeto tridimensional utilitário que se aproxima da garrafa de Klein em ter apenas uma única superfície e não uma interna e outra externa;
(c) prover um exemplo demonstrativo [show-and-tell, no orig.] de um objeto de lado único para uso no ensino de aspectos interessantes de topologia para estudantes de matemática;
(d) prover um vaso de bebida que possa ser manuseado da maneira normal, ainda que vazio, sem ter o conteúdo do vaso fluindo através da abertura do recipiente, através da aplicação de uma reduzida pressão do ar na superfície sobre a qual o vaso esteja em repouso.

Como se vê, a (in)utilidade está toda no último quesito: todo mundo realmente deseja deixar de levantar a caneca para tomar café e acha que seria mais prático usar uma bombinha sucção (ou canudos) para tomar o precioso líquido sem tocar na caneca.

Antes dessas justificativas, Kepner fangirl Klein relembra a vida de Felix Christian Klein (1849-1925) e tenta explicar como é uma garrafa de Klein e quais seriam as propriedades de uma caneca correspondente:

Para nos ajudar a ver as propriedades únicas do vaso de bebida, vamos supor que o vaso seja feito de um material incrivelmente fino [não refinado, mas pouco espesso]. Esse é um “experimento mental”, não um real, onde você realmente faz alguma coisa. Note que a única borda do vaso é o círculo que seus lábios tocariam se você beber café por ele. O círculo do recipiente seria uma borda bastante aguda enquanto o recipiente e a asa oca juntar-se-iam e seriam forma suavemente curvadas. Agora imagine que você tenha uma minúscula bolinha negra de material magnético localizada algures na superfície do vaso e outra minúscula bolinha branca magnética localizada no lado oposto do vaso. Se alguém fosse (mentalmente) mover a bolinha branca ou a preta, uma de cada vez, ao longo da superfície do vaso, de modo que a bolinha branca terminasse onde a preta estava inicialmente, e a preta ficasse onde a branca originalmente estava. Isso pode ser conseguido sem ter que fazer qualquer dos magnetos passarem sobre a borda redonda do vaso, que é a única extremidade do vaso. Além da Garrafa de Klein, nenhuma outra superfície oca tem essa propriedade. Outra maneira de visualizar ou demonstrar as propriedades únicas dessa forma é apontar para o fato de que um insetozinho pode arrastar-se de qualquer ponto para qualquer outro ponto da superfície do vaso sem cruzar a borda. Os bichinhos não podem fazer isso em uma xícara de café normal ou em qualquer outro objeto tridimensional que usamos em nossas vidas cotidianas.

Além de ser uma versão (aparentemente) tosca incompleta de uma “Caneca de Klein”, a de Kepner sequer é uma criação original. A única referência que o inventor de Boulder Creek, Califórnia, dá é a “Klein Bottle Mug”, produto “fabricado e vendido pela ACME KLEIN BOTTLE, divisão da Nocturnal Aviation em 6270 Colby Street, Oakland, Calif. 94618”. Como essa pode muito bem ser uma referência inventada (ACME, sacaram?), Kepner cita o kleinbottle.com. O site realmente existe e, embora tenha sido atualizado este mês, ainda mantém o tosco visual da virada do século.

De fato, a empresa citada oferece um produto similar ao criado por Kepner, mas o inventor a considera “uma estrutura muito mais complexa e definitivamente não é uma estrutura de lado único”. Porém, o produto da ACME é que parece estar mais próxima de um conceito de lado único: essa caneca tem uma única abertura superior e um único furo. A asa (ou pegador) da caneca da ACME também é oca, mas liga-se às paredes, igualmente ocas do recipiente. Além disso, ela tem uma câmara interna e incomunicável, que pode ser mantida vazia ou, de algum modo, preenchida com outro líquido.

Se bem que, observando mais atentamente os diagramas de Kepner, sua Caneca pode até ser one-sided: ela também parece ter paredes ocas que são preenchidas com líquido. O que a torna um tanto impraticável mesmo é a abertura por baixo. Mesmo que não se coloque nada na abertura, , “tradicional”, seria no mínimo bizarro tomar algo de uma caneca vazia virada de cabeça para baixo (embora a ideia seja justamente essa). O que complica a compreensão da patente de Kepner é o texto prolixo e pseudotécnico: porque recipiente [container] em lugar de paredes ocas? E porque asas ocas ocas [hollow handle hollow]?

Por fim, Kepner tentou fazer algo que a Apple também conseguiu: patentear uma forma geométrica. Isso, por si só, já é patético. A diferença é que Kepner não conseguiu lucrar com sua “invenção”. Mas num ponto Kepner é superior à empresa de Cupertino: depois de patentear uma forma geométrica ele não saiu por aí processando os concorrentes no qual pode ter se inspirado. Pelo menos até onde se sabe…

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