“Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de inseto.”

Essas são as primeiras palavras de A Metamorfose, de Franz Kafka (1883-1924). Mas em que “espécie monstruosa de inseto” Kafka teria metamorfoseado Gregor Samsa? Muitas traduções (e, porque não dizer?, tradições) tendem a mostrar o Gregor insetizado como uma barata antropomórfica.

nabokov on kafka

Página do exemplar de “A Metamorfose” de Nabokov: repare nas anotações do entomologista-autor.

Vladmir Nabokov (1899-1977) discorda. E as razões da discordância não são apenas literárias ou linguísticas. Nabokov discorda entomologicamente da tese da barata. O autor de Lolita era, na verdade, um respeitável entomologista — ele chegou a dizer que se não fosse pela Revolução Russa, teria devotado sua vida ao estudo dos insetos. Por isso mesmo, o escritor russo-americano tinha grande interesse na obra-prima kafkiana. Tanto que teria proferido uma palestra na Universidade de Cornell sobre o tema:

Agora, o que é, exatamente, o “inseto” no qual o pobre representante comercial Gregor é transformado tão subitamente? É obviamente um que pertence ao ramo das “pernas articuladas” (Arthropoda), ao qual pertencem insetos, aranhas, centípedes e crustáceos. […] Próxima questão: qual inseto? Comentaristas dizem que é uma barata, o que claramente não faz sentido. Uma barata é um inseto de forma achatada, com longas pernas e Gregor é tudo menos achatado: ele é convexo em ambos os lados, no ventre e nas costas, e suas pernas são pequenas. Ele se assemelha às baratas apenas num aspecto: sua cor é marrom. E só. Fora isso, ele tem uma barriga tremendamente convexa, dividida em segmentos e umas costas arrendondadas e endurecidas que sugerem capas de asas. Nos besouros, essas capas escondem asinhas fininhas que podem ser expandidas e levar o besouro por milhas e milhas num voo desajeitado. […] Além disso, ele tem mandíbulas fortes. Ele usa esses órgãos para virar a chave numa fechadura enquanto se mantém ereto em suas patas posteriores, seu terceiro par de patas (um parzinho reforçado) e isso nos dá o comprimento de seu corpo, que é de quase trés pés [uns 0,9m]. […] No texto original, em alemão, a velha diarista o chama de Mistkafer, um “rola-bosta”. É óbvio que a boa mulher está apenas sendo amigável com o apelido. Ele não é, tecnicamente, um rola-bosta. Ele é apenas um besouro bem grande.

A conclusão de Nabokov não deixa de ser meio poética: “Gregor, o besouro, nunca percebeu que tinha asas sob sua carapuça. Há Gregors, Joes e Janes que não sabem que têm asas.”

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