electric dental chairMesmo com anestesia, o medo de sentar-se na cadeira do dentista ainda é comum hoje em dia. Para alguns, a aplicação de anestésicos com agulhas parece morbidamente invasiva. No fim do século XIX, a coisa devia ser ainda pior. Que tal resolver o problema com uma cadeira elétrica? Essa é a ingênua proposta apresentada por Levi L. Deckard na patente intitulada Electrical Appliance for Dental Chairs [Aplicação Elétrica para Cadeiras Dentárias]:

Minha invenção é relativa a um aparato elétrico e sua aplicação à cadeiras dentárias e tem como objetivo a administração de eletricidade como anestésico para pessoas em uma cadeira de operação, antes ou durante a extração de dentes ou performance de outras operações dentais mais ou menos dolorosas em sua natureza.

Parece até aquela clássica estratégia dos desenhos animados: tirar sensibilidade à dor em um lugar infligindo mais dor em outro. O funcionamento da cadeira elétrica de dentista proposta por Deckard na patente nº. 353.403 [pdf], aprovada em 30 de novembro de 1886, é simples.

Segundo a minuciosa descrição da técnica, o dentista aciona, com o pé um “pedal que pode ser feito para operar com o pé direito ou esquerdo pela simples colocação do pino u em uma ou outra extremidade, de acordo com a necessidade do caso.” Esse pedal, por sua vez, aciona um pequeno dínamo, ou melhor, “uma bancada portátil que armazena e suporta uma máquina magneto elétrica [sic] para fornecer eletricidade para os eletrodos aa por meio de cabos isolados bb, que são cingidos aos braços da cadeira A.”

Na prática, o pobre paciente agarra pontas desencapadas de fios enrolados nos apoios dos braços da cadeira do dentista. Quando considera necessário, o dentista aplica a “anestesia” acionando um gerador a pedal. O choque supostamente aliviaria a dor de uma extração dentária ou operação odontológica. Mesmo que funcionasse, seria mais um estorvo do que um auxílio: imagine um cirurgião-dentista pedalando vigorosamente com um pé para anestesiar e com outro para acionar a broca (que ainda não era elétrica) enquanto o paciente grita alucinadamente, numa mistura de medo, susto e dose dupla de dor.

Deckard — de Midletown, Pensilvânia —, não informa como ou porque tal eletroanestesia funcionaria. Sua patente descreve minuciosamente o funcionamento do sistema, mas não seus efeitos em seres humanos. Deckard não diz de onde tirou a ideia (embora seja possível que tenha sido influenciado pelas primeiras pesquisas sobre a eletrocussão) nem apresenta fundamentos teóricos ou práticos para seu invento. Também não há dados sobre a potência da corrente gerada (mas dada a tosca forma de geração, a voltagem não deve ter sido muito alta).

Embora provavelmente não tenha sido fatal, a cadeira elétrica de Deckard poderia causar ferimentos ou mais dor em vez de anestesiar o paciente. Entretanto, de certo modo, Deckard foi visionário: sua cadeira elétrica foi patenteada dois anos antes da adoção da execução pela eletricidade no estado de Nova York e quatro anos antes da primeira (e ainda tosca) eletrocussão de um condenado. Deckard só teve a ideia certa para o ramo errado.

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