Quer ganhar dinheiro e ainda ter seus artigos acadêmicos sempre aceitos? Porque não cria seu próprio periódico científico? Parece piada universitária, mas não é. Foi exatamente isso que a veterinária norte-americana Melba Ketchum fez. Ketchum considera-se uma especialista no Pé Grande (ou Sasquatch), o folclórico grande símio da costa oeste americana.

Ela bem que tentou, mas graças ao ceticismo ocultismo da comunidade científica, não conseguiu publicar seu paper sobre o “estudo do genoma Sasquatch” em nenhuma revista especializada. Segundo o jornal Dallas Observer, as evidências teriam sido extraídas de (supostas) amostras de pelos da criatura. O paper a descreve [a criatura, não a veterinária] como “um aparentado do humano que surgiu há aproximadamente 15 000 anos como híbrido do cruzamento entre o moderno Homo sapiens com uma espécie primata desconhecida”. Ketchum alega que o Pé Grande, portanto, seria um humano e deveria ser tratado e protegido como tal pelas autoridades. Outros nove coautores (ou talvez pseudocoautores) também assinaram o trabalho.

Se não pode com eles, junte-se a eles. Já que não conseguia ser aceita pelos editores científicos, por que não tornar-se editora? Foi o que Ketchum fez, ainda segundo o Dallas Observer. Na última quarta-feira Ketchum informou em seu Twitter que finalmente encontrara uma publicação com cara-de-pau coragem suficiente para publicar seu estudo: o DeNovo Journal of Science.

DeNovo

Mas enquanto a National Geographic, a BBC e até Jane Godall replicavam a novidade, a farsa começou a ser derrubada. O Huffington Post e diversos blogueiros fizeram o que os jornalistas deveriam ter feito: foram investigar a tal publicação. Após notar o quão amadora era a aparência do site do DeNovo (vide o print acima), descobriram que o domínio da página havia sido registrado apenas nove dias antes da publicação do paper de Ketchum. Para piorar, o tal artigo sobre o Pé Grande é o único publicado (e em edição especial) pelo DeNovo Journal of Science. Como quase toda publicação científica respeitável, o site cobra 30 dólares para quem quiser acessar o artigo de Ketchum (et. al?).

Além da lição de que não se faz ciência com as próprias mãos (a não ser literalmente), o caso Ketchum também ensina como não fazer uma fraude do tipo. Se for pra fraudar, fraudem direito, porra! Escrevam logo dezenas de (pseudo)artigos e publiquem uma meia-dúzia de edições antes de aparecer com um estudo “bombástico”. Cobrando pela leitura (e vendendo alguns anúncios), seria possível ganhar alguns trocados antes que qualquer conspiração governamental investigação jornalística acabasse com a mamata. Além disso há a questão do nome. Por favor, escolham um nome adequado à área de autação. Uma publicação com esse título genérico — DeNovo Jounal of Science — não inspira mesmo muita confiança. “Journal of Megapodology”, “Proceedings of Gigantopithecus Academy”, “Cryptozoogenomics Review” ou “Sasquatch Letters” seriam nomes mais respeitáveis e deixariam claras quais as áreas de interesse da (pseudo)publicação.

Agora, falando sério. O caso de autopublicação de Ketchum é mais preocupante do que parece à primeira vista. Legalmente falando, nada impede que um pesquisador rejeitado (justa ou injustamente) abra sua própria editora para publicar a si mesmo. E nem deveria haver tal proibição, já que isso seria um sério ataque à liberdade de expressão e imprensa. Na maior parte dos casos, o único impedimento para fraudes desse tipo é mais de ordem econômica do que ética. Criar uma editora ad hoc é fácil, mas não é barato.

Mas então como resolver tal problema? O processo de peer review é uma boa ideia, mas, como toda criação humana, tem suas falhas. A recente discórdia entre acadêmicos e as grandes editoras científicas prova que é urgentemente necessária uma reforma dos meios de comunicação acadêmica. Novamente, a questão é como resolver o problema. Mais abertura no processo de revisão seria desejável. Mas se abrir demais, vira wikipedia mercado de peixe, onde qualquer um (inclusive um pseudocientista) pode dar seu pitaco. Fechar mais o processo, porém, iria na contramão do que está acontecendo no mundo. Seria encastelar ainda mais a comunidade científica (e mantê-la bem dócil nas mãos dos editores).

Como estamos falando de ciência, não se pode esperar por soluções mágicas ou milagrosas. Talvez nem simples. Mas por mais preocupante que tal problema possa parecer, podemos estar certos de que, cedo ou tarde, ele será resolvido. Porque a ciência, como dizia Sagan, vem com um sistema de autocorreção embutido.

[Dallas Observer via The Museum of Hoaxes]

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