O ano 2100 verá a eugenia universalmente estabelecida. Nas eras passadas, a lei que governa a sobrevivência do mais ajustado capinou, grosso modo, as descendências menos desejáveis. O novo sentimento de pena dos homens passou a interferir com as operações brutas da natureza. Como resultado, nós continuamos a manter vivos e a reproduzir os inaptos. O único método compatível com nossas noções de civilização e raça é prevenir a procriação dos inaptos pela esterilização e orientação deliberada do instinto de acasalamento. Diversos países europeus e alguns estados da União Americana esterilizam os criminosos e os insanos. Isso não é o suficiente. A tendência de opinião entre os eugenistas é que nós deveríamos tornar o casamento mais difícil. Certamente ninguém que seja desejável como progenitor deveria receber permissão para produzir sua progenitura. Dentro de um século não mais parecerá boa ideia a uma pessoa normal juntar-se com uma pessoa eugenicamente inapta da mesma forma que [ocorre com a ideia de] se casar com um criminoso habitual.

Este é um trecho de um artigo cheio de previsões futuristicas publicado na revista americana Liberty em sua edição de 9 de fevereiro de 1935. Quem seria o autor de prognóstico tão sombrio? Adolf Hitler? Errado! É Nikola Tesla (1856-1943).

Isso mesmo, o gênio injustiçado por Thomas Edison e recém-aclamado como “o maior geek que já existiu” também tinha algumas ideias detestáveis. Como nota Matt Novak em artigo no Paleofuture, Tesla vem sendo canonizado como mártir geek. É verdade que há alguma justiça na redescoberta de Tesla, mas ele não era um santo ou super-herói. Era um homem e também teve seus defeitos. Destes, a crença na eugenia é o menos perdoável no mundo de hoje.

A seu favor, os defensores de Tesla poderiam argumentar que ele não foi o único. De fato, muitos foram os que se deixaram levar pela (aparente) lógica racional do darwinismo social — apenas para citar alguns: Winston Churchill (1874-1965), H.G. Wells (1866-1946), George Bernard Shaw (1856-1950), John Maynard Keynes (1883-1946) e Linus Pauling (1901-1994).

Só que uma ideia racional nem sempre é a mais correta e os eugenistas se equivocaram gravemente ao aplicar (ou tentar aplicar) deliberadamente uma lei biológica no mundo social e cultural. Os resultados são bem conhecidos (e não estamos falando apenas da “solução final” nazifascista). Como indica Tesla, houve práticas eugênicas até nos Estados Unidos, com a esterilização forçada de criminosos (na crença ingênua de que isso e apenas isso eliminaria o crime). A criminalidade continuou e continua a existir nos EUA — sendo que, na época, foi até turbinada por outra medida de purificação social, a proibição do consumo de álcool.

Isso significa que Tesla não mereça os museus e outras homenagens que estão sendo feitas por seus admiradores? Claro que merece, mas é importante que seus fãs não se tornem cegamente fanáticos, renegando os defeitos e os equívocos de Tesla. E que aprendam que mesmo o maior gênio de seu tempo pode deixar-se seduzir por dúbias teorias pseudocientíficas.

Ninguém é perfeito.

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