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Telefone celular (ou telemóvel para os lusos): OK. Tablet: OK. Carregadores de baterias: OK. Garrafinha de água: OK. Carteira: OK. Bolsos: não dá. Se você já enche seus bolsos (inclusive o do boné), como vai aindar por aí com sua parafernália tecnológica e manter-se on-line? Convenhamos, carregar celulares e tablets nas mãos não é confortável nem seguro. Pior, eles acabam ficando sujos e manchados. E podem até acabar arranhados. E, com duas mãos ocupadas (e talvez algumas sacolas), vai ser difícil se manter hidratado e postar aquela foto do gole d’água no Instagram. Como proceder?

Comprar uma bolsa ou mochila seria a resposta mais simples, mas não para Clerence Thomas. Ele prefere um cinto de utilidades (dois, aliás) e recomenda o seu Neck wrap/brace for holding items and belt article holder for same [Envoltório de pescoço/cinta para segurar itens e artigo de cinta de suporte para o mesmo], que o mesmo descreve de modo redundantemente bem claro:

Uma combinação de envoltório de pescoço/cinta para segurar itens e cinto para carregar o mesmo, que inclui um envoltório de pescoço [oh, really?] com uma correia para ser enrolada no pescoço de uma pessoa [oh, really?]. Um primeiro arranjo de segurança segura junto as extremidades opostas da correia de pescoço em torno do pescoço da pessoa. Um suporte para telefone é fixo na correia do pescoço para sustentar um telefone adjacente à orelha da pessoa, para permitir-lhe o uso do telefone de modo hands-free. Um artigo [indefinido?] de cinto inclui um cinto adaptado para ser cintado na cintura da pessoa e um suporte de envoltório de pescoço/cinta sustenta o envoltório de pescoço/cinta quando o envoltório de pescoço/cinta não está em volta do pescoço da pessoa.

Alguma dúvida? Sim, é isso mesmo: trata-se de uma coleira-suporte pro celular, para lhe permitir ficar com as mãos livres — olha, mãe, sem as mãos! O problema de ter que carregar a coleira-suporte quando você não está ao telefone é resolvido com o cinto de utilidades que, entre outros, tem um suporte para a coleira-suporte. Suporteception! Tal solução ingênua engenhosa deve ter maravilhado o USPTO. O invento de Clarence Thomas — morador do Queens, em Nova York — foi oficialmente aprovado em 16 de agosto de 2005, sob nº. 6.929.164 [pdf]. A justificativa chega a ser um pouco mais clara e um pouco mais convincente:

A presente invenção está genericamente relacionada a um envoltório de pescoço/cinta a ser usado por uma pessoa para carregar itens. Caminhar com muitos itens, como um telefone, caneta ou lápis, moedas, cigarros, etc, pode ser muito embaraçoso, particularmente quando todos os itens precisam estar prontamente acessíveis. Comumente, tais itens são abarrotados em bolsos ou maletas, o que, por conseguinte, deixa os itens não prontamente acessíveis.

Eu disse que seria só um pouco mais convincente. E sim, há um suporte pra lápis no suporte-coleira e o que parece ser um suporte para tablets é, actually, um suporte para um bloco de notas. Mas nada que um aparelho de tamanho adequado ou uma gambiarra resolvam.

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Thomas ainda ressalta que o incômodo de ter que lidar com várias coisinhas é maior em pessoas com deficiência. Talvez essa seja a única afirmação sensata da patente inteira. Quanto à ideia de suporte pra telefone, ele reconhece que há (muitos) precedentes, mas considera-os pouco práticos porque, em sua maioria, baseiam-se em suportes ligados ao ombro e não ao pescoço, o que os torna mais difíceis de serem retirados quando fora de uso.

De resto, o texto da patente — que se estende por quatro páginas, além de oito páginas de ilustrações e uma de resumo — repete ad nauseam a canhestra expressão/nome “neck wrap/brace” (ou “envoltório de pescoço/cinta”) na tentativa de explicar o que é e pra que serve um neck wrap/brace (ou envoltório de pescoço/cinta).

O que Thomas não percebeu é que cintos de utilidades só podem funcionar e ser bonitos no cinema. Francamente, nem o empresário mais hiperativo nem o jornalista mais atabalhoado — só para citar dois possíveis públicos-alvo — usariam isso. Pelo simples fato de que as cintas de Thomas conseguem ser mais bregas que uma pochete. Mais que bregas, elas são gritantemente indiscretas. Qualquer pessoa que as usasse faria o mesmo que gritar: “olhem pra mim! olhem pra mim! vejam como eu sou multitarefa!”. Não é irritante? Ou talvez queiram chamar a atenção para a própria riqueza: “Olhem pra mim, ladrões, olhem pra mim! Vejam quantas coisas vocês podem roubar!” Ou então, pateticamente: “I’m Batman!”

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Ah, sim. Esta é a centésima patente patética (eu ia fazer um especial, mas acabei esquecendo). Se você se divertiu com esta, imagina na Copa! as outras 99! Leia todas as outras invenções dúbias que já descrevemos e analisamos seriamente aqui (para as 37 primeiras) ou aqui (para as outras 63). E lembre-se: como a idiotice inventividade humana não tem limites, essa série não acaba tão cedo…

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UPDATE (21/03) OH WAIT! Essa patente não lhes parece familiar? Pois é… Parece que as coisas ficaram meio wibbly-wobbly por aqui. Este que vos escreve conseguiu a proeza de se plagiar a si mesmo, apresentando a mesma patente pela segunda vez! Quão patético da minha parte! Mas este post não será deletado, porém. Considerem como um momento “vale a pena ver de novo” totalmente aleatório e fica tudo certo ;).

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