Em todos esses anos nessa indústria vital, essa é a primeira vez que isso nos acontece: uma patente patética sem ilustração. Mas a ideia de Yong Zou e Qiang Zou é tão simples que realmente pode dispensar desenhos ridiculamente esquemáticos. Membros de um tal de Shandong Institute for Product Quality Supervision & Inspection, os dois Zou são os criadores oficiais de uma nova droga (em ambos os sentidos do termo): Ginkgo Biloba L. leaves cigarette ou cigarro de folhas de Gingko Biloba:

Esta invenção fornece um tipo de cigarro substituto que é chamado cigarro de Gingko Biloba [não diga!]. Ele não tem apenas a função de refrescar, mas também é bom para a saúde das pessoas. Ele evita o dano que foi trazido aos corpos humanos pelas substâncias venenosas do tabaco. Como o Gingko Biloba contém grandes quantidades de flavonóides e Gingkolideos, que são bons para o corpo humano, e esses ingredientes ativos farmacêuticos são fáceis de volatilizar e podem ser absorvidos pelo pulmão, então bons efeitos serão promovidos. A fumaça desse tipo de cigarro é leve e densa, e pode prevenir e curar hipertensão, doenças cardíacas, arteriosclerose e demência senil. Este tipo de cigarro pode ser produzido por tecnologia ordinária.

Não sabemos que deu na cabeça desses dois chineses de Shandong para patentear um baseado chinês. Também não sabemos se o pessoal do USPTO estava chapado ao examinar e aprovar a patente nº. 6.776.169 [pdf], em 17 de agosto de 2004. Parte do texto da patente esclarece o primeiro ponto — o par de inventores deve ter sido inspirado pelas crescentes restrições ao uso de cigarros de tabaco:

Enquanto todos os governos do mundo estão advogando o abandono do fumo e criando leis para limitar a produção e venda de cigarros, cientistas de técnicos de tabaco [ou melhor, da indústria tabagista] estão fazendo esforços para estudar como reduzir os danos do cigarro e desenvolver cigarros de baixo ou de nenhum risco. É por causa do fato que há tantos fumantes que a completa proibição do fumo tem alcançado pouco efeito. Sobre o efeito social e retorno econômico, as contradições, fumar e saúde, ainda existem.

Yong e Quiang prosseguem relatando o uso de filtros nos cigarros ou processos especiais de colheita do tabaco. Eles afirmam que “esses métodos ordinários supracitados não conseguem resolver o problema inteiramente”. Depois eles atacam todos os concorrentes mais diretos, os cigarros com ervas alternativas, muitas delas da medicina tradicional chinesa [quando possível, indicamos o nome científico latino, já que nossos patéticos inventores não se deram a esse trabalho]:

Para prevenir e curar doenças, as pessoas tem desenvolvido até agora um cigarro de folha de absinto, um cigarro de chá, um cigarro de ginseng do sul [Gynostemma pentaphyllum], e cigarros de ervas mistas, produzido pela adição de eucalipto, folhas de Dogbance, raiz de Pilose asiabell [Codonopsis pilosula], Menta-silvestre, raiz de Slenderstyle Acanthopanax [Cortex Acanthopanacis], ginseng de Changbai, bulbo fritilário [Bulbus fritillariae], raiz de Milkvetch [Astragalus], Tremella, Ganoderma lucidum, Rabanete, Dwarf Lilyturf [Radix Ophiopogonis], tubérculo de Gastródia [Gastrodia], casca de Eucommia, Hempleaf Negundo Chastetree [Vitex negundo], coral e gengibre ao tabaco. Entretanto, esses cigarros não são satisfatórios com respeito ao custo, efeito medicinal ou baixa toxidade.

Estranho que tenham se esquecido de enumerar a Cannabis sativa — ainda mais considerando que um dos tradicionais supostos efeitos do Gingko biloba é melhorar a memória. Mas as pessoas, segundo os inventores, “estão tentando desenvolver um novo tipo de substituto para o cigarro que seja satisfatório com respeito ao custo, sabor e toxidade.” E nada de efeitos recreativos, pelo visto. Tudo isso, obviamente, só pode ser conseguido com o cigarro de Gingko biloba inventado pela dupla chinesa.

Além de conter “substâncias ativas como flavonoides e gingkoides”, capazes de “prevenir e tratar angiocardiopatia e doenças do sistema nervoso”, o uso da Gingko biloba para criar fumaça é melhor porque tal planta é “a espécie de árvore mais antiga do mundo, mais velha até que os dinossauros, sendo considerada um ‘fóssil vivo’”. Ou seja: não se preocupem, gente. Nosso cigarro é natural e por isso não faz mal. Até os dinos devem ter fumado!

Na ânsia de mostrar que as pesquisas com G. biloba são respeitáveis, Yong e Quiang inventaram até um ganhador do Prêmio Nobel que nunca existiu: “Em 1991, um scholar de Harvard ganhou o Prêmio Nobel por sintetizar com sucesso Bilobalida em laboratório.”

Os ganhadores do Nobel de 1991 de Medicina e Fisologia — os alemães Erwin Neher e Bert Sakmann — foram laureados “por suas descobertas sobre a função dos canais de íon único em células”. Richard Robert Ernst, físico-químico suíço, foi laureado por seus aperfeiçoamentos do espectroscópio magnético nuclear, aparelho que permite estudos da estrutura de grandes moléculas. Nenhum Nobel, portanto, trabalhou com Gingko biloba. Nem essa tremenda trapaça foi notada pelo USPTO! Ou talvez tenha sido, mas eles deviam mesmo estar chapados demais pra perceber.

Os dois inventores ainda relatam todos os tradicionais efeitos do Gingko biloba, que supostamente seriam efetivos mesmo com a queima da folha. A seu favor, citam apenas um único estudo,  com ratos — não-publicado e aparentemente conduzido pelos próprios inventores —,  cuja conclusão é gritantemente favorável: Gingko biloba não contém nicotina. Logo, não deve fazer mal, nem causar vício. Não há nenhuma citação sequer de alguma replicação de tal estudo ou de pesquisa parecida. Muito menos de testes com seres humanos. Nem mesmo para os efeitos supostamente benéficos da planta chinesa são passadas fontes de comprovação científica.

É praticamente fumaça patenteada!

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