Patentes Patéticas (n°. 98)

bicicleta eólica

Pedalar é uma opção de transporte ecologicamente correta, mas cansativa. Sempre há a possibilidade de dar uma mão na roda da bicicleta, mas as alternativas para facilitar o uso das magrelas não são lá muito sustentáveis: ou são pequenos motores de combustão, movidos a combustíveis fósseis ou são baterias que movem motores elétricos. Esta parece mais eco-friendly, mas aí você se lembra que as baterias estão cheias de metais tóxicos e que a eletricidade para carregá-las nem sempre é gerada de forma sustentável. Você quer pedalar, mas sem fazer muito esforço. Como proceder?

Use a energia dos ventos. É a sugestão do canadense James C. Hayes, criador da “Wind-assisted bicycle” [“Bicicleta com auxílio eólico”]:

A bicicleta tem um quadro no qual uma roda dianteira e uma roda traseira são rotavelmente montadas [d'oh!]. Pelo menos uma dessas duas rodas é conectada a pelo menos um dispositivo que usa a força de Bernoulli [sic] gerada pelo vento para assistir no movimento para frente da bicicleta. Tal dispositivo tem uma turbina movida pelo vento com uma pluralidade de aerofólios horizontais ligados a uma árvore [shaft] rotavelmente montada próxima a um eixo [axis] horizontal. Ela também tem um escudo em posição adjacente a parte da turina para defletir o vento e prevenir seu impacto com os aerofólios quando eles rodam para frente. Uma embreagem é eficazmente conectada entre a árvore da turbina e a roda para transferir a força gerada pelo vento no interior da turbina para tal roda.

Uma bicicleta turbinada! Como ninguém pensou nisso antes de 5 de dezembro de 2002, quando Mr. Hayes entrou com o pedido de patente nos Estados Unidos? Bem, na verdade muita gente já havia pensado nisso em diversos lugares do mundo. No texto da patente, Hayes lista quase uma dezena de patentes sobre a “arte anterior”. Além de uma patente europeia de 1987 e uma francesa de 1995, há meia dúzia de patentes chinesas com basicamente a mesma ideia registradas entre 1990 e 1998. Aparentemente, nenhum desses inventores pensou em patentear sua ideia em âmbito internacional ou garantir a proteção de seus direitos no mercado americano.

Mesmo sendo canadense, Hayes conseguiu se aproveitar disso. Na patente americana 6.880.844 [pdf], emitida em seu nome em 19 de abril de 2005, ele não só cita explicitamente as demais patentes estrangeiras como fala especialmente da CN 2.058.162, patente chinesa de 1990 para um “acelerador movido pelo vento para bicicletas” composto por uma “pluralidade de aerofólios ligados a uma árvore horizontal conectada à roda dianteira de uma bicicleta através de uma embreagem.” A falta de criatividade da patente americana é patente (sacaram?) por seu próprio conteúdo: são apenas cinco páginas de ilustrações e figuras esquemáticas e pouco mais de uma de texto, do qual a maior parte é mera descrição do dispositivo e do trabalho de terceiros.

Não que a citação de patentes estrangeiras ou anteriores seja incomum. Pelo contrário, isso é parte obrigatória do processo de aprovação da patente. O problema é que, ao que tudo indica, Hayes não apresenta nenhum aperfeiçoamento das patentes anteriores. Exceto pela tal “força de Bernoulli”, que não existe e na verdade é um efeito do Teorema ou Princípio de Bernoulli.

turbina de Hayes

Não bastasse tudo isso, a tal turbina de Hayes é tremendamente imprática. É uma peça grande, pesada, montada na roda dianteira de uma bicicleta. Segundo o texto da patente americana, é melhor montá-la aos pares:

De um ponto de vista prático, apenas um dispositivo 9 poderia ser conectado em apenas um lado de apenas uma das rodas. Isso funcionaria mas desequilibraria desnecessariamente a bicicleta. Consequentemente, não é obrigatório mas altamente recomendável que a bicicleta 1 apresente dois dispositivos simetricamente posicionados em relação ao seu quadro 3.

É até possível montá-las no eixo traseiro, mas nosso preguiçoso inventor não recomenda isso porque tornaria o “mecanismo motor da bicicleta mais complicado, uma vez que a roda traseira já está conectada, via corrente, aos pedais.”

E mesmo assim deve ser difícil equilibrá-las, já que elas têm rodinhas de apoio.

Mas e se o vento mudar de direção? E se parar de ventar? Como se controla a velocidade da turbina? Como eu a transporto quando ela não está em uso? É fácil removê-la? Nenhuma dessas dúvidas é explicada na patente. Até porque o único objetivo de Hayes é assegurar seus supostos direitos sobre ideias alheias. Com a bênção do USPTO, é claro.

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Discussão - 1 comentário

  1. Igor Santos disse:

    Você já viu alguma coisa sobre a pseudopolêmica do “a favor do vento mais rápido que o vento” (que foi tão popular que tinha seu próprio acrônimo – dwfttw)?

    Fora que parece um motoperpétuo, onde a velocidade da bicicleta gera o vento que vai impulsionar a bicicleta.

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