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Enquanto todo mundo se preocupa com a proteção (ou falta de) contra radiação, a pressão psicológica ou como lidar com as necessidades fisiológicas de astronautas em longas missões espaciais, Richard F. Haines andava preocupado com o corte de cabelo no espaço sideral. Haines é o criador do Grooming aid for collecting debris [algo como Apoio para coleta de restos de embelezamento]:

Um dispositivo composto por uma capa plástica clara, sustentada por uma estrutura articulada que é anexada a um colarinho e cuja combinação define uma cavidade. O colarinho tem pelo menos uma grande abertura para receber um apêndice [appendage, i.e., um astronauta] que será higienizado no interior da cavidade. A capa é equipada com aberturas para receber as mãos do indivíduo que conduz o serviço de limpeza. Uma mangueira de sucção para coletar material indesejado produzido durante o cuidado com o cabelo também é inclusa no interior da cavidade.

Ao contrário do que pode parecer, o equipamento proposto por Haines — de Los Altos, Califórnia — é sério. Haines de certa forma era pago para ter essas ideias, pois era funcionário da NASA quando entrou com o pedido de patente em 29 de agosto de 1988. De fato, a patente 4.932.098 [pdf], aprovada em 12 de junho de 1990, está licenciada para a Agência Espacial Americana.

O equipamento todo é composto pela bolha de plástico dobrável, a mangueira de sucção de velcros — muitos velcros — para fixar tanto a bolha quanto o barbeiro e o próprio astronauta que precisa dar um tapa no visual. Como é difícil segurar objetos em baixa gravidade, os utensílios necessários — tesouras, pinças, barbeador, cortador de unha, etc. — para a barbearia espacial são manejados com luvas equipadas com ímãs ou mais velcro.

Haines projetou o equipamento para uso em dupla, mas opcionalmente é possível que um único astronauta consiga se virar com ele. Ou não. A tradicional cadeira de barbeiro, porém, ficou de fora. Evidentemente, por ser muito volumosa e pesada, o que encareceria ainda mais as missões espaciais.

Não se trata de resolver um problema meramente estético. Haines argumenta que

a habilidade de manter necessidades de higiene pessoal de uma tripulação espacial ajudaria a sustentar a moral de tal tripulação. Prover equipamento que permite aos tripulantes manter cuidados pessoais, como corte de cabelo, fazer a barba, fazer manicure, etc, a bordo de extensas missões é um dos meios para manter as necessidades pessoais da tripulação.

O funcionário da NASA, portanto, não está brincando. Cortar o cabelo, além de manter a boa aparência e a autoestima dos astronautas, é uma atividade higiênica, coisa fundamental num ambiente hostil. Encontrar um fio de cabelo na comida é uma experiência desagradável. Mas não tanto quanto encontrar um fio de cabelo flutuante na comida igualmente flutuante, durante uma missão a milhares de quilômetros da Terra e sem poder reclamar com o gerente mais próximo. O problema, claro, não é a comida: é o cabelo. Manter a cabeleira em ordem num ambiente sem gravidade não deve ser fácil. Especialmente se for uma vasta cabeleira.

Mas os astronautas precisam mesmo cortar as madeixas? Exceto pelas (poucas) mulheres, astronautas mal se destacam pelo penteado — praticamente todos têm um corte militarmente curtíssimo — e passam tão pouco tempo longe do cabeleireiro mais próximo que nem dá tempo do cabelo crescer e se rebelar.

“A maioria das missões espaciais tripuladas até o momento têm sido voos curtos. Isto é especialmente verdadeiro para as missões dos Estados Unidos.”, reconhece Haines, no texto da patente. No entanto, ele procura resolver um problema prático que surge apenas em voos espaciais de longa duração: “Recentemente, o cosmonauta Yuri Romanenko, da União Soviética, fez história no voo espacial ao operar sua nave no espaço durante 326 dias consecutivos”.

De fato, nas décadas de 1980 e 1990, havia uma tendência de permanências cada vez mais longas em órbita. Em 1987-88, Vladimir Titov Musa Maranov passou 365 dias no espaço. Foi superado por Sergei Avdeyev, que passou 379 dias fora da Terra uma década mais tarde entre agosto de 1998 e agosto de 1999. O recorde ainda insuperado é de Valeri Polyakov, que ficou 437 dias a bordo da Mir entre janeiro 1994 e março de 1995.

Com o apoio da NASA para tal invento, era de se esperar que missões americanas cada vez mais longas estivessem sendo organizadas. Mas, por falta de ousadia ou de dinheiro, isso nunca aconteceu. O único americano entre no top 10 de maior tempo em órbita numa única missão foi Michael López-Alegria, mas não há porque se alegrar: ele ficou só 215 dias na Estação Espacial Internacional, entre setembro de 2006 e abril de 2007. O recorde feminino é de Sunita Williams: 195 dias na Estação Espacial Internacional, também em 2007. Aliás, a própria Sunita foi a primeira mulher a cortar o cabelo no espaço, no fim de 2006. No entanto, parece que o equipamento de Haines não foi utilizado.

Mas será que era preciso inventar um equipamento (e patenteá-lo) só para ir onde nenhum cabeleireiro jamais esteve? Aparentemente, não. O próprio Heine relata, na patente, que “cosmonautas participantes de missões soviéticas de longo termo têm se barbeado com um simples barbeador elétrico com cabeças rotativas. O cabelo cortado é descartado com auxílio de uma mangueira de sucção”.

Convenhamos: é mais fácil transportar um barbeador barato com uma mangueirinha improvisada do que toda a parafernália criada pela NASA…

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