Se (diz [François] Arago) essa questão fosse simplesmente proposta para mim — É o Sol habitado? — eu responderia que nada sei sobre a matéria. Mas permita-me supor que alguém me perguntasse se o sol pode ser habitado por seres organizados de maneira análoga àqueles que povoam nosso globo, não hesitaria em responder pela afirmativa. A existência, no sol, de um núcleo central obscuro, envolvido numa atmosfera opaca muito além da qual existe a atmosfera luminosa não se opõe, com efeito, a tal concepção.

Sir William Herschel pensava que o sol fosse habitado. De acordo com ele, se a camada da atmosfera na qual opera a ação química luminosa montasse a um milhão de léguas, não seria necessário que o brilho em cada ponto [da superfície] sobrepujasse o de uma aurora boreal ordinária. Em qualquer caso, os argumentos sobre os quais o grande astrônomo se apoia, de maneira a provar que o núcleo solar pode não ser tão quente, apesar da incandescência da atmosfera, são não apenas os únicos, mas os melhores que podem ser aduzidos. A observação direta, feita pelo Pe. Secchi, da depressão da temperatura nos pontos da superfície solar nos quais aparecem as manchas é, com esse respeito, mais importante que qualquer outro raciocínio.


“Dr. Elliott mantinha, já no ano de 1787, que a luz do sol provinha do que ele chamava de um denso e universal crepúsculo. Ele acreditava, ainda, junto com certos filósofos antigos, que o sol pudesse ser habitado. Quando o Doutor foi levado a Old Bailey por seu envolvimento na morte de Miss Boydell seus amigos, entre outros o Dr. Simmons, sustentaram que ele era louco e que poderiam prová-lo abundantemente pela apresentação de seus escritos, nas quais suas opiniões sobre o assunto recém-citado eram desenvolvidas. Hoje em dia as concepções de tal louco são amplamente adotadas — Arago’s Popular Astronomy [Astronomia Popular de Arago], vol. I, livro XIV, cap. 29.”


Sir John Herschel conclui que o sol é um planeta [sic] abundantemente habitado e suas inferências são retiradas dos seguintes argumentos:


“Nos cumes das montanhas de altura suficiente, numa altitude onde as nuvens raramente alcançam para se proteger dos raios diretos do sol, sempre encontramos regiões de gelo e neve. Agora, se os raios solares em si mesmos carregassem todo o calor que encontramos neste globo, deveria ser mais quente onde seu curso é menos interrompido [pela atmosfera]. Novamente, todos os nossos aeronautas [i.e., balonistas] confirmam a frialdade das altas regiões da atmosfera. Uma vez que, portanto, mesmo em nossa Terra, o calor da situação depende da aptidão do meio para render-se à impressão dos raios solares, nós só podemos admitir que, no próprio sol, os fluidos elásticos componentes da atmosfera são de tal natureza que não são capazes de qualquer afetação excessiva por seus próprios raios. Aliás, isso parece ser comprovado por sua copiosa emissão deles [os raios]. Pois se os fluidos elásticos da atmosfera ou a matéria contida na superfície do sol fosse de natureza tal a admitir uma fácil combinação química com seus raios, suas emissões seriam muito dificultadas. Outro fato bem conhecido é que o foco solar da maior lente lançado no ar não ocasionará qualquer calor sensível no local onde esteve por considerável espaço de tempo, apesar de seu poder de excitar a combustão, quando os corpos são expostos [sob tais lentes] seria o bastante para fundir a mais refratária das substâncias.”

Do capítulo de Astronomia do interessantíssimo livro de John Timbs, Things not Generally Known, Familiarly Explained. A book for old and young [Coisas pouco conhecidas ordinariamente, com explicações familiares. Um livro para jovens e velhos], 11a. Edição. Londres: Lockwood & Co., 1867

Sir John Herschel (1792-1871) foi astrônomo, matemático, químico e pioneiro da fotografia inglês, além de ser filho de William Herschel (1738-1822) e pai de 12 crianças(!). Intrduziu o uso do dia juliano na astronomia, deu nome a sete luas de Saturno e quatro de Urano. Também fez pesquisas sobre a cegueira às cores (daltonismo) e os raios ultravioleta.

François Arago (1786-1853) foi um físico, matemático, astrônomo, maçom e político francês. Foi primeiro-ministro entre maio e junho de 1848 e era muito próximo dos carbonários italianos. Foi astrônomo do Real Observatório, um dos fundadores dos Annales de chimie et de physique e um dos primeiros defensores da moderna teoria ondulatória da luz e pesquisador da polaridade da luz. Também foi divulgador da astronomia, escrevendo livros de popularização desta ciência.

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