Ser filho único deve ser uma coisa triste. Você pode até ter os brinquedos que quiser e não precisar dividi-los com ninguém, mas há brinquedos que só têm graça quando são compartilhados. Pior ainda: há pais que preferem criar forever-alones desde criancinha a deixar seus pimpolhos correr o risco de, por exemplo, cair da gangorra do parquinho. Se isso parece exagero, é porque você ainda não conhece a Solo-operable seesaw [Gangorra solo-operável] inventada por Dale e Michael Boudreaux:

Uma gangorra solo-operável inclui uma peça-base com seções laterais opostas espaçadas para envolver a superfície do solo e ainda inclui uma pluralidade de suspensórios com extremidades opostas conectadas a isso [à base]. A gangorra inclui ainda uma placa alongada com uma das porções engajada na base e seletivamente pivotável ao redor dela. A placa tem, além disso, uma extremidade oposta espaçada que define um assento e inclui uma pluralidade de manoplas alongadas que se estendem para fora da placa. A gangorra inclui também um mecanismo para levantar pivotalmente a placa para cima ao longo de uma trajetória arqueada pré-determinada quando a segunda extremidade da placa é movida para selecionar posições rebaixadas. O mecanismo de elevação inclui uma mola com pistão aero-hidráulico [ou seja, um amortecedor] com ambas as extremidades e uma pluralidade de suportes conectados a isso [à gangorra]. O mecanismo de elevação ainda inclui ainda um pino rotativo que passa transversalmente através [sic; perdão pelo pleonasmo] da placa para conectar a mesma à base.

Parece uma coisa bem inclusiva, mas não é. Sabe quando você quer brincar de gangorra mas não tem companhia? Os Boudreaux resolveram isso com uma gangorra-solo. Mas não foi essa a motivação que levou o par a pedir a patente do invento em 5 de janeiro de 2004. Eles explicam seus motivos na discussão do estado-da-arte relativo a gangorras:

No entanto, apesar desses aperfeiçoamentos, a gangorra comum ainda tem uma série de características inerentes que a torna menos que o ideal como aparelho de playground. Primeiro: por exigir duas crianças para se tornar operacional, uma criança deve sempre ter um colega à disposição a fim de subir na gangorra. Com as gangorras domésticas, esse nem sempre pode ser o caso, já que os casais têm cada vez menos filhos atualmente e estão cada vez mais preocupados com a segurança quando suas crianças estão longe de casa e fora de suas vistas. Portanto, um irmão ou vizinho pode nem sempre estar disponível para subir na gangorra. Segundo: como a gangorra opera sob o princípio de pesos contrabalançantes, o resultados podem ser ferimentos se um dos usuários cair subitamente ou pular da gangorra enquanto o outro está lá em cima, particularmente se um dos usuários for mais pesado que o outro. Neste cenário, o usuário oposto e lançado ao solo e o impacto súbito pode abalar as juntas da criança ou causar lesões na espinha ou no cóccix. Terceiro: uma placa de gangorra pode ser um objeto perigoso nas mãos de uma criança malévola que pode puxar para baixo um dos extremos enquanto outra criança passa próxima ao extremo oposto, causando a elevação repentina do extremo oposto e potencialmente atingindo a criança próxima. Quarto: devido a seu tamanho e ao peso de seus usuários, tais gangorras são geralmente limitadas ao uso em ambiente externo.

Os Boudreaux parecem estar falando sério e foram tão convincentes que, em 15 meses, tiveram sua patente aprovada sob nº. 6.872.145 [pdf], emitida em 29 de março de 2005. Apesar dos nomes soarem franceses, os inventores são americanos de Thibodoux, Louisiana.

Realmente, as gangorras não são os brinquedos mais seguros de um parquinho — digo por experiência própria, pois já caí de uma certa vez. Mas um escorregador bem grande ou um balanço ou um gira-gira também não são nada seguros. O problema quase sempre está nas crianças e não nos brinquedos. Aliás, criar suas crianças no isolamento bem seguro do lar pode torná-las exatamente o tipo de pirralho que derruba os outros da gangorra por pura indiferença ou malevolência.

Tal ideia só poderia vir de pais superprotetores — seriam Michael e Dale um casal com filho único ou pais com filhos únicos? — que tiveram seus traumas no parquinho, mas não sabem como lidar com isso. Se você tem um filho e quer protegê-lo, ótimo. Mas não vai adiantar nada criar brinquedos pateticamente solitários e isolar seu pimpolho dos riscos do mundo enquanto você trabalha bem longe dele (do seu filho, não do mundo) e evita o playground. Você vai ter que acompanhar seu filho ativamente — e isso pode significar dar um tempo, enfrentar seu trauma de infância e brincar na gangorra com ele, caso você não confie em seus amiguinhos (os do seu filho, não os seus).

O que torna tudo ainda mais patético é que os Boudreaux não conseguiram nem proteger sua invenção ao patenteá-la. Ainda em 2006 uma fábrica de brinquedos americana entrou não com um, mas com dois pedidos de patente que têm basicamente a mesma ideia dos louisianos. A única diferença na versão desenvolvida pela indústria é que o brinquedo não é de plástico, mas de tubos metálicos com um assento almofadado. E embora ambas as patentes da fábrica tenham textos praticamente idênticos, o USPTO aprovou uma em agosto de 2009 (nº. 7.572.190) e outra somente em 2012 (nº. 8.100.776).

Os Boudreaux caíram do cavalo. Ou melhor, da gangorra.

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