Parafraseando Richard Feynman, “se você acha que entende as recentes manifestações populares, você não entende essas manifestações populares”. Muita gente tem se perguntado sobre o que está acontecendo no Brasil. Porque agora? Aonde isso tudo vai acabar? Como sempre, os protestos que começaram por R$0,20 a mais nas passagens de ônibus e metrô têm virtudes e defeitos. Mas ainda é cedo para se ter certeza se há mais qualidades ou riscos no que alguns já chamam de “primavera brasileira”. Espero que não, mas em meio a essa confuão generalizada talvez até este texto se revele equivocado.

O que mais tem atordoado os analistas políticos e, principalmente, o próprio governo do PT é que o Brasil não reúne as condições de uma “primavera”, um levante de indignados. É verdade que não temos (ao menos por enquanto) sérios problemas de desemprego causado por medidas de austeridade. Tampouco temos (apesar do que insistem os direitistas mais radicais) uma ditadura opressora, que não respeita qualquer tipo de liberdade individual. O fato é que talvez estejamos no meio-termo dessas condições.

Explico.

Não temos índices desesperadores de desemprego. Não para a população economicamente ativa em geral. Mas para os mais jovens, tem sido muito frustrante procurar um primeiro emprego e não conseguir, sempre com a justificativa de que experiência é pré-requisito inegociável. Quem não conhece algum adolescente ou pós-adolescente que já tentou “entrar para o mercado” sem experiência, mas cheio de vontade e que só encontrou portas fechadas e rejeições sumárias?

A situação pode ser (e é) ainda mais desesperadora quando se tenta compensar a inexperiência com formação superior. A atual geração de jovens é a primeira a ter a desagradável surpresa de que diploma não garante mais emprego algum (e em alguns setores, como em comunicação, nem há mais obrigatoriedade legal de ter diploma). Quer coisa mais enervante que dedicar quatro anos de sua curta vida aos estudos acadêmicos na esperança de ter uma boa colocação e não conseguir? Não é à toa que os primeiros a explodir foram justamente os estudantes universitários.

Portanto, ao contrário do que afirmam alguns mais à direita, não é que as universidades sejam ninhos esquerdistas. É que nada torna alguém tão convicto da falência do capitalismo quanto um capitalismo que te recebe a bordoadas. Isso quando se dispõe a te receber para um processo seletivo ou entrevista. A coisa só piora quando você, junto com sua geração, resolve tomar as ruas para demonstrar sua indignação, sua revolta, quem sabe até sua raiva já incontrolável. Nesse caso, quem deveria lhe proteger — o Estado — é que lhe dá bordoadas. Tudo porque a propriedade, pública ou privada, importa mais que as suas angústias de jovem desempregado (com as quais nem seus pais se importam, como acontece com muitos).

Mas esse conflito de expectativas contra a realidade, de idealismo contra a economia, de mais velhos contra os mais novos, nada disso é o pior. O pior é a demonização de um movimento que começa por razões legítimas. Como alguém pode dizer que vive numa democracia quando esta iguala manifestantes a vândalos e a criminosos? Isso não seria coisa de um regime semi-autoritário, que ainda não se livrou (e resiste e se livrar) dos entulhos da ditadura militar? De governo(s) que já fez(fizeram) de tudo para neutralizar a oposição? Vândalos, claro, devem ser punidos. Mas vândalos infiltrados, como parece ter havido em muitos casos, devem ser mais punidos ainda. Não importa de onde venham nem a quem servem. Os chamados P2 são tão corruptos quanto o estado de coisas que supostamente atacam. Não deixa de ser irônico que uma manifestação aparentemente subversiva seja aparentemente subversiva por ações de radicais agenciados pelo Estado.

A vandalização das manifestações não é apenas no sentido físico, de agressões a pessoas ou a propriedades. Tem havido uma assustadora violação de ideais, quaisquer que sejam. Queimar bandeiras é vandalismo. Xingar quem tem posicionamento diferente é vandalismo. Agredir e hostilizar equipes da imprensa é vandalismo. Isso já é óbvio a esta altura. Mas gritar palavras de ordem genéricas contra a corrupção, nunca contra os corruptores também é vandalismo. Protestar só por protestar, além de ser meio idiota, não deixa de ser meio autoritário. A massa deve ter voz, mas não pode ser a única voz numa democracia.

Quer dizer que devemos ficar quietos diante da corrupção? Claro que não, mas ela não se combate com gritos. Corrupção não é uma coisa; é uma atitude e se combate com mudanças de atitudes, a começar por ações cotidanas como respeitar filas e não evitar multas de trânsito com um agradinho ao guarda. Pra quem ainda não entendeu, corrupção não é como passagem de ônibus ou hospital sucateado ou escola abandonada. Embora aquela seja muitas vezes a causa destas, não se resolve da mesma maneira. Após mais de 500 anos de experiências governamentais diversas, já deveríamos ter apreendido que corrupção (passiva e ativa) não se resolve com mais leis ou mais punições. É ingênuo pensar que corruptos (e corruptores) serão punidos apenas porque milhares de pessoas saíram às ruas por alguns dias. É utópico acreditar que os conchavos e tramóias vão ser silenciados por palavras de ordem e bordões repetidos em uníssono. Aliás, pode até ser que quanto mais barulho, melhor. Ninguém vai prestar a atenção se surgir (se é que já não surgiu) um “acordão”, uma espécie de autoanistia de quem tem as mãos sujas nos bastidores de Brasília e das demais capitais. E nada impede que isso possa acontecer.

Numa democracia, é fundamental que corruptos (e corruptores) sejam sempre julgados pelo Judiciário, nunca pela mídia e muito menos pela massa. Por mais esclarecidas que sejam, tanto a imprensa quanto a população podem cometer injustiças e linchamentos morais. Isso não é democrático. Pode-se questionar os trâmites legais, os inúmeros recursos, a demora na execução das sentenças, mas de nada vai adiantar se ninguém propor uma reforma judiciária, por exemplo. E não adiantaria apenas propor.

Por mais necessária que seja, qualquer reforma — como a política, que agora ressurge, ou a tributária, a dos transportes, da saúde, da educação, etc — precisa ser seriamente debatida, cuidadosamente ponderada, minuciosamente revista e eficazmente adequada antes de ser posta em prática. Mesmo que isso pudesse ser feito por democracia direta (inclusive on-line), uma série de reformas necessárias ainda levaria (muito) tempo. De novo, é questionável que o Congresso não se mobilize no sentido dessas reformas e nem seja obrigado a isso. Goste-se ou não, numa democracia é o próprio Congresso quem decide o quê, quando e como vai votar. Isso pode ser parcialmente reformado, mas não pode ser inteiramente prescindido. Podemos fazer pressão, seja por assinaturas virtuais ou protestos bem reais, mas, por mais infeliz que nos pareça, qualquer decisão parlamentar é e deve ser soberana — até ser que seja derrubada pelos outros poderes democraticamente constituídos, como o Executivo e/ou o Judiciário.

Quanto ao Judiciário, há a questão do Ministério Público. É uma instituição igualmente indispensável num regime democrático. Mas isso não significa que o MP seja perfeito nem que possa ser reformado. O mesmo MP que investiga casos de corrupção muitas vezes engaveta denúncias contra determinados partidos ou indivíduos poderosos. E também é esse mesmo MP que muitas vezes manda prender os mais pobres e os negros com uma pressa que não tem igual nos casos de corrupção político-partidária. Antes de ser derrubada, a PEC 37, que restringe os poderes de investigação do MP deve ser seriamente debatida. Não apenas pelos parlamentares, mas pela sociedade. Inclusive por aqueles que a ela se opõem.

De ambos os lados do espectro político, há quem considere obsoleta a divisão em direita/esquerda. Mesmo que você não tenha partidos, pode ter posições de direita ou de esquerda mesmo sem saber. Aliás, não é nada absurdo ser um pouco de cada lado. Tanto à esquerda quanto à direita, há quem acuse o outro lado de golpe. É bom saber que a memória de 1964 ainda está bem viva depois de meio século. É bom saber que tanto direitistas quanto esquerdistas prezam pela democracia (ao menos no discurso). Melhor ainda é que ninguém buscou saber o que os militares acham disso tudo (por mais que achem que está tudo uma bagunça, eles têm o dever constitucional de permiti-la). Esse ar de paranoia política demonstra que há um saudável ceticismo por parte de setores politizados (recém-politizados ou não). O problema é que tal ceticismo tem sido muitas vezes exacerbado. Só porque alguém discorda da tua opinião ou pertence a outra classe social, não significa que esteja tramando um golpe. A não ser, é claro, que você tenha provas contundentes de um movimento subversivo. Nesse caso, se você preza mesmo pela democracia, deve denunciar os golpistas em vez de maquinar um “contragolpe”. Mas, repito, deve denunciar apenas munido de provas contundentes e concretas e não de teorias de Facebook.

Falando no Face, ele tem sido muito louvado e pouco criticado. Ainda que sejam reprováveis alguns casos de deleção de páginas ou postagens, pode ser que tenham sido necessárias. Não que se defenda a censura nem a vigilância irrestrita e paranoica à la NSA. Mas quem garante que os autores de tais publicações sejam realmente bem-intencionados? Nada é mais fácil do que criar um perfil falso numa rede social. Porque não seria igualmente fácil criar falsos eventos de manifestações fajutas e propagar informações mentirosas, desnecessárias ou maliciosas? E porque os responsáveis por isso não poderiam ser punidos? Há liberdade de manifestação plena na internet, é claro. Sempre deve haver. Mas esconder-se atrás do anonimato ou de um perfil falso é de uma covardia imperdoável numa democracia.

Muita gente, aliás, ainda não compreendeu que quem não tem más intenções não precisa esconder o rosto com máscara de um revolucionário do século XVII memeficado por um filme do século XXI (muito menos portar martelos, dar voadoras ou portar coquetéis molotov). Como as armas, o anonimato só é útil e necessário em regimes autocráticos ou totalitários (como os da Inglaterra de Guy Fawkes ou do mundo de V de Vingança), que realmente punem qualquer indivíduo discordante. Se você sai às ruas mascarado num regime que não é nem autocrático nem totalitário, admite implicitamente que é um criminoso. Não reclame se for tratado como tal.

E quanto aos partidos? Não são criminosos também? Em casos individuais, pode ser. O oportunismo partidário não deixa de ser revoltante. Mas partidos existem e são necessários numa democracia. Podem e devem participar de qualquer evento. Podem e devem ser ouvidos, ainda que tenham muito mais a ouvir na conjuntura atual. O nosso maior problema não é a existência de partidos. É que todos, sem exceção, só olham para o próprio umbigo, só se importam com seus filiados e tapam os ouvidos diante das demandas populares. Alguns ainda podem até ter seus militantes, mas será que aceitam não-militantes com posturas questionadoras?

Não é à toa que na última década as ONGs tenham se fortalecido. As organizações não-governamentais são mais abertas e, em muitos casos, mais flexíveis e tolerantes. São mais “jovens”, não só cronologicamente, mas no sentido de que se parecem mais com redes sociais do que com organismos políticos. Embora não tenham (ou não devessem ter) objetivos governamentais, o que as ONGs fazem é política. Posicionar-se contra ou a favor de uma tema (ex: defesa do meio-ambiente ou defesa do agronegócio?) já é tomar um partido e fazer política. Qualquer opinião emitida já é política, e política é algo indissociável de uma democracia. Se você não gosta de política, é melhor voltar a compartilhar fotos de gatinhos fofos ou fazer comentários de telenovelas. Mas mesmo esse tipo de atitude traz uma política implícita. Se você gosta de gatinhos, muito provavelmente é um defensor de animais. Se prefere novelas, muito provavelmente defende certo tipo de estrutura midiática. Por mais censuráveis que sejam, suas opiniões são direito seu. O que não pode é tentar enfiá-las goela abaixo dos demais, seja em Comissões da Câmara, seja nas ruas.

Mas, voltando às ONGs, mesmo elas têm muitos defeitos. Muitas nem são tão “não-governamentais” assim, principalmente as ligadas a partidos e/ou capitaneadas por personalidades, além das trambiqueiras, que só querem faturar. E mesmo assim, poucos são os que defendem a extinção completa de ONGs. Porque, então, deveríamos extinguir os partidos?

É certo que precisamos destruir alguns aspectos de nossa democracia. Talvez inclusive muitos (mas não todos os) partidos. Muitos (mas não todos os) nossos representantes eleitos. Muitos (mas não todos os) nossos costumes políticos e maneiras de debater questões. Muitas das nossas leis, porém nem todas. A democracia é uma estrutura simultaneamente muito forte e muito frágil. Como um enorme edifício, um regime democrático só se mantém sólido se primeiro contruirmos um pilar mais resistente e só então desmontarmos aquela escora que já nos parece tosca e insustentável.

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