Assorted picnic ants

[via: iainclaridge.co.uk]

Sempre é uma experiência desagradável fazer um convescote na companhia destes pequenos (às vezes nem tanto) insetos sociais. Mas nem nos desenhos animados, onde essa situação é um lugar-comum, um pequenique foi tão terrível quanto o relatado — ou melhor, transcrito — pelo entomologista e fotógrafo Mark W. Moffett na edição de 16 de feveiro de 2012 da respeitável Nature. Parece mais uma pequena peça tragicômica do “Indiana Jones da Entomologia” — como Moffett é conhecido — do que um artigo científico. Atendendo a pedidos, na maior cara dura, tomamos a liberdade de traduzir o artigo inteiro. Os links indicados são nossos:

Venha voar comigo.

Eu sou Gerry Blandsides e esta é a fita de gravação 18 para minha bolsa de pós-doutorado 978-2023, The Geopolitical Significance of the Ants in Namibian Mud Wallows: An Übersynthesis [A Significância Geopolítica das Formigas nas Poças de Lama Namibianas: Uma Übersíntese]. É o nono dia de minhas observações da colônia de formigas ‘cabeçudas’ Pheidole situada a leste de Otjiwarongo, no lamaçal e latrina 62Ω.

07:00 71 formigas passaram ao longo de sua trilha de colheita no último minuto. Sua dieta permanece indeterminada, embora, como antes, pareçam transportar pedaços de material enegrecido.

07:02 Nenhuma mudança.

7:04 Nada.

7:06 Nadica.

7:08 Bocejo.

7:10 Zzz.

7:12 Me mata.

07:14 Contei 69 formigas no último minuto. Uma formiga ocasional arrasta um pedregulho para um dos anéis de areia que elas acumularam perto da borda da trilha. (Nota mental: esta atividade inútil me faz imaginar que as formigas estão tão entediadas quanto eu. C’est la vie! No fim das contas, eu triunfarei com meu conceito unificador da hipertrofia pós-Jurássica da metaestrutura neosocial de formigas sob condições de intensa interatividade com excreta suína e seus efeitos na dinâmica do aceno antenal.)

07:16 73 formigas por minuto. Uma formiga pára e se enfeita. Uma mosca pousa no meu nariz.

07:18 67 formigas (Nota: o uso da trilha mantém-se estável, ao contrário das conjecturas daqueles intelectuais boêmios de Yale e seus papeizinhos milimetrados. Será que esta predição do Apêndice 142 de minha bolsa será corroborada? Ao concluir minha contagem, dou uma alegre saudação à formiga enfeitadinha enquanto ela vem em minha direção.)

07:20 Matei a mosca. A formiguinha pára de se enfeitar e corre até o inseto moribundo. Ela pausa para olhar para mim, depois olha para a mosca, depois pra mim de novo, antes de fugir apressada.

07:22 Seis formigas reúnem-se ao redor da mosca e acendem uma pequena fogueira sobre ela no interior de um daqueles anéis de areia que haviam construído antes. (Nota: as asas da mosca crepitam enquanto queimam) O time roda a mosca de modo que ela torre por igual, passando de um díptero marrom-dourado para um cinza-escuro esfumaçado. (Outra nota: cozinhar não era exclusividade humana? A próxima bolsa será garantida se esse achado for replicável)

07:24 O odor de grelhado está me enlouquecendo. As formigas trouxeram ervas de arbustos próximos, adicionando o aroma do orégano, mas com notas mais vibrantes! Eu puxo um sanduíche do meu jaleco de campo, mas a porcaria me desaponta.

07:26 Formigas retiram a mosca do fogo e trincham a carne defumada. (Nota: salivando! E se bem me lembro, insetos têm menos gordura e mais proteínas que um bife.)

07:28 A formiga que estava se enfeitando — e tenho certeza que é o mesmo indivíduo —retornou com outras seis. (Nota mental: como em outras espécies de formigas Pheidole, este recrutamento de assistência foi indubitavelmente conseguido pelo uso de um perfume químico que a formiga-líder libera no ar. A autoridade em tais ferormônios é o Professor E. O. Wilson —será que ele apoiaria um projeto de trabalho de campo sobre isso?) As recém-chegadas formigas-operárias empurram metade da mosca destrinchada na minha direção, olham para cima, para mim, e retiram-se devagarinho.

É uma delícia, como eu já sabia.

[Longo intervalo de estática na gravação da fita] …preciso de um nome comercial sedutor, como os que os restaurantes dão àqueles terríveis jogos de peixe. Arthrofowl [Artrofrango]? Miniquail [Minicodorna]? Souperfly [Moscasopa]? Kosherbug? Chicken Little? MicroMcNuggnats? Flying lobster [Camarão voador]?

17:56 313 formigas/minuto. 87 pequenas fogueiras tremeluzem aos meus pés sob os últimos raios do por do sol. Um suprimento constante de moscas esmagadas — que agora inclui mosquitos crepusculares do genus Anopheles — mantém minha colônia de formigas ocupada. Sua receita melhora toda vez que eu esmago uma formiga que deixa passar do ponto. (Nota: seleção natural em ação? Eu também deveria escrever um artigo sobre isso. Deixa pra lá, esqueça a ciência — chatice, chatice! Formigas que cozinham, quem se importa? O futuro está garantido se eu replicar este prato — succulant? aphrodisiant? antbrosia? — sem elas.)

17:58 A divisão 50/50 que as formigas estão me oferecendo parece-me justa. Mas ainda calculo que vou precisar de milhates de moscas para manter a dieta. O que deve ser como um elefante que depende de amendoins distribuídos um a um por uma criança. Chega de repelente de insetos pra mim! Vinde a mim os bichinhos! Mesmo porque o DEET dá a cada bocado um amargor distinto — e ainda deixa as formigas enjoadas.

Espere aí. Há mais formigas me observando. Parece que uma mosca pousou em minha orelha e agora tem um mosquito na minha testa. Volto em dois minutos.

[Outro intervalo de estática indecifrável]

19:22 São formigas demais para se contar — umas 4.000 por minuto? Não importa quantas moscas eu abata, não consigo mais manter suas necessidades. Pior, as chamas debaixo de mim fundiram-se numa única conflagração que está chamuscando meus cabelos. Minha cara está formando bolhas, os olhos marejados pelo calor. (Nota: formigas estúpidas, como podem cozinhar algo agora? Reveses como esse podem causar atrasos se eu decidir chamar o Food Network. Ei, o que é aquilo? As formigas enxameiam minhas pernas, algumas delas carregando ervas. É uma resposta de recrutamento mil vezes mais intensa do que as mostradas diante de uma mosca! Haverá um ferormônio diferente envolvido? Vou tomar notas copiosas, mas antes tenho de descobrir porque não consigo me mexer.)

[Fim da gravação]

***

OK, vocês já devem ter percebido que este não é um artigo científico de verdade. Mas é um excelente conto da Future, a coluna de ficção-científica da Nature.

rb2_large_gray25Referência

Mark W. Moffett. “Picnic with ants”. Nature 482, 434 (16 February 2012) doi:10.1038/482434a Published online 15 February 2012.

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