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Nestes tempos de restrição às sacolinhas plásticas, ir às compras pode ser um saco. Caixas de papelão são deselegantes e as sacolas “retornáveis” não são lá muito baratas (além de serem fáceis de esquecer em casa). Que tal passar o chapéu para fazer as compras, minha senhora?

Não, não é mendigagem, é invenção de moda mesmo. Em plena Grande Depressão, bem antes das sacolinhas plásticas, D. Elberta inventou um Combined Hat and Shopping Bag [Combinado de Chapéu e Bolsa de Compras] que é uma gracinha:

Esta invenção relaciona-se a aperfeiçoamentos na combinação de chapéu e bolsa de compras e um dos objetivos desta é apresentar um chapéu melhorado que tenha uma copa removível a qual, posteriormente, ao ser removida da borda servirá à guisa de bolsa para as compras. Ao mesmo tempo, a porção restante do chapéu pode ser usada como um chapéu descopado, sendo equipado, se desejado, como meios para segurar o chapéu e para evitar [o seu] deslocamento acidental.

Não sabemos ao certo qual era a idade de D. Elberta Roy Woodside ao ter essa epifania, provavelmente durante uma feira. Gostamos de imaginar que ela já era uma boa vovozinha quando pediu o registro do chapéu-sacola em 20 de abril de 1934. Ao falar em aperfeiçoamento, D. Elberta foi modesta: a ideia era original mesmo e foi a primeira do tipo (no fim dos anos 1990, por exemplo, surgiria um boné-carteira).

A ideia de D. Elberta é bastante simples: a copa do chapéu é formada por um par de pedaços redondos de pano (nº. 16, nas figuras), fixados nas abas por quatro botões de pressão (pares 23-27 e 26-27). Cada um deles tem uma pequena cordinha (24) que serve de alça. Os dois pedaços são unidos entre si por outros botõezinhos. Como seria difícil manter a aba fixa com o cocoruto descoberto, um par de tiras (15) pode ser usado para amarrar o que sobrar do chapéu-sacola (10) à cabeça. A borda da aba é reforçada por um arame (11) e os suportes 13 e 14 ajudam a manter o chapéu no lugar, com ou sem a copa-sacola.

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Assim, se a senhora já escolheu suas frutas na feira, basta apenas tirar o chapéu, desabotoar a copa, abrir um de seus botões e puxar as alças da sacola portátil, que está pronta para levar umas frutas, uns legumes ou quem sabe uns docinhos pros netos. Se estiver fazendo muito sol, não tem problema: dá pra manter só a aba na cabeça, fixando-a com os botões das tiras de segurança. Se o sol não incomodar (ou a senhora estiver num ambiente coberto), é possível levar a aba pendurada ao braço ou, dependendo do material, dobrá-la e guardá-la na própria bolsa ou na sacola recém-destacada.

O texto da patente é relativamente claro e bem-escrito. Mas D. Elberta — que era de Chicago, Illinois — deve ter se esquecido de informar as dimensões exatas de seu chapéu-bolsa (se bem que as quatro figuras anexas podem esclarecer isso). Quanto ao material, diz apenas que “obviamente qualquer material adequado ou desejável pode ser empregado e ele ainda pode ser de natureza à prova d’água e de uma característica tal que o dispositivo seja leve em peso”.

Não é difícil entender como a patente foi aprovada pouco mais de um ano após o pedido, em 9 de julho de 1935. Difícil é entender como a ideia não pegou. Não sabemos se a vovó-inventora (se é que era uma vovó) chegou a fazer (e vender) seu chapéu-sacola artesanalmente antes de registrar a ideia. Apesar da invenção ser simples e prática, deve ter sido justamente a patente nº. 2.007.235 que impediu a fortuna de D. Elberta. Ao que tudo indica, D. Elberta era apenas uma dona de casa e, apesar de conseguir a patente, não fez qualquer esforço para comercializar o chapéu-bolsa. Não é difícil imaginá-la morrendo pouco depois, só e miserável…

Que dó…

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