http://www.google.com/patents?id=cB00AAAAEBAJ&printsec=abstract&zoom=4&dq=4608967

Você é um executivo milionário #foreveralone, ou melhor, incompreendido, que fala sozinho e que não tem apoio de ninguém? Não: você é aquele cara que adora tirar sarro de si mesmo nas festas? Ou você é aquele chefe que se diverte dando estimulantes presentes de auto-ajuda pros seus funcionários? Seja lá quem você for: para Ralph Piro, você merece um tapinha nas costas. De si para si.

Não precisa se contorcer. Basta montar e usar seu Pat on the back apparatus [Aparato tapinha nas costas]:

Um aparato auto-congratulatório que tem um simulacro de mão humana carregado por um braço pivotante suspenso de um membro apoiado no ombro. A mão é manualmente [sic] balançável dentro e fora do contato com as costas do usuário para dar um divertido ou importante tapinha-nas-costas.

Sabe como é: montar uma pequena geringonça muitas vezes é mais simples do que pedir uma abraço ao próximo. Principalmente porque o próximo pode ser mesquinho ou frio o bastante para lhe negar um valioso tapinha-nas-costas.

Aplauso, por favor. *plaf*

Exceto por ser o morador de Lindenhurst — um vilarejo de Long Island, Nova York —, e detentor da patente nº. 4.608.967 [pdf], nada sabemos sobre Ralph R. Piro. Ele pode ser um patrão mala, um humorista frustrado ou um inventor muito sério, preocupado com a solidão contemporânea e seus efeitos psicossociais sobre a saúde mental da população nova-iorquina. Talvez seja tudojuntoemisturado.

Quem (ou como) quer que seja, Mr. Piro deve ter percebido algures na década de 1980 que havia uma demanda reprimida por tapinhas-nas-costas. E ele buscou resolver esse tragicômico problema não com a distribuição de abraços grátis, mas à maneira de um empreendedor americano: inventando um aparelho e patenteando-o (e ficando rico, é claro). Na patente aprovada em 2 de setembro de 1986, nosso pirado inventor explica-se:

A presente invenção é relativamente simples para montar e operar e pode ser utilizada ou por uma criança ou por um adulto. Um de seus usos é como dispositivo de entretenimento ou diversão que pode ser desfrutado ou sozinho ou na presença de um grupo de pessoas. Com esse respeito, a presente invenção é particularmente adequada como presente humorístico para um empregado ou membro da família ou como brinde de festa.

Sim, claro. É deveras útil quando você quer demonstrar sutilmente quão patética é a vida de uma pessoa. Por outro lado, prossegue Piro,

o dispositivo da presente invenção pode também ser utilizado para conceder significativos benefícios psicológicos ao usuário. Neste aspecto, é bem conhecida a arte e a prática de reforçamento positivo auto-admistrado, atividade em que várias técnicas podem ser empregadas com sucesso para exaltar as virtudes das próprias ações ou ideias. Por exemplo, tem sido relatado que muitos indivíduos ricos e bem-sucedidos se engajam em diálogos consigo mesmos, i.e., que conversam sozinhos. Tal atividade é compreensível sabendo-se que é comum que a conversa da gentalha de indivíduos auto-derrotistas transbordam de baixa auto-estima. Outro tipo desta atividade é o uso de espelhos para acrescentar impacto visual e expressões às técnicas de feedback vocal supramencionadas.

Piro ainda diz que “historicamente, muito do material disponível para o indivíduo deve ser lido ou estudado como parte de um curso de auto-aperfeiçoamento”. Basicamente, portanto, ele está falando de auto-ajuda. Mas livros (ou mesmo audiolivros em fitas cassete, como os que existiam nos anos 80 do século XX) não abraçam ninguém — muito menos dão tapinhas nas costas. Como explica Piro,

Frequentemente, alguém que está necessitado de congratulações ou encorajamento busca seus amigos ou colegas de trabalho e lhes conta seus sentimentos, solicitando um necessário tapinha-nas-costas. Na ausência de outra pessoa ou pessoas amigáveis ou sensíveis às necessidades individuais de alguém, o indivíduo deve recorrer ao ato de elevar o braço e a mão bem acima da cabeça e dobrar o braço com o cotovelo [sic] para permitir que a mão bata gentilmente a porção superior das costas.

Notando que esse gesto é desconfortável — mas sem ver o quanto é patético —, Mr. Piro propõe um substitutivo mecanizado. Ele reconhece que está, de certa forma, reinventando a roda, já que “vários dispositivos mecânicos anteriores são conhecidos pelo uso de um arranjo de elementos mecânicos para aplicar uma força de contato nas costas da pessoa sem o auxílio de terceiros.” Alguns, diz Piro, são úteis, como os coçadores de costas (deve haver centenas de patentes patéticas só sobre isso). Porém, “outros designs conhecidos de contato físico auto-administrável incluem mecanismos que implicam numa atitude comportamental negativa e tendem a reduzir a auto-estima. Um deles usa uma bota para chutar o usuário nos traseiros”.

Obviamente, a operação do aparelho autoestapeador de costas é muito simples e facilmente compreensível a partir da ilustração da patente. Mesmo assim, vejamos as instruções deixadas pelo pirado inventor:

Para operar o dispositivo da presente invenção, o usuário simplesmente põe o aparelho em quaisquer dos ombros e segura a barra-guia ou manopla 18 com uma mão, inclinando-a de modo que o membro de suporte 12 assuma um ângulo apropriado com relação às costas. O usuário, então, segura a corda ou fita 28 com a mão livre e dá à corda um empuxo gentil até que as costas recebam um tapinha gentil da mão simulada 24 ou um tapa mais firme se isso for desejável. Depois, seja por soltar a corda ou movimentar a mão presa à corda de modo que a corda se solte, a mão e o braço se retraem e por força da gravidade assumem uma posição pronta para o golpe subsequente.

E isso não é tudo nesta patente patética. Como se desconfiasse que não acertou a mão na patente, Mr. Piro ainda escreveu uma seção intitulada SUMÁRIO DAS MAIORES VANTAGENS DA INVENÇÃO*, onde reitera habilmente os argumentos já apresentados. Seu invento é vantajoso porque serve tanto como “gag gift” para o humorista autodepreciativo quanto como meio para “superar alguns vales da vida emocional numa sociedade altamente tecnizada que sempre adia o nível desejável de aprovação pessoal imediata para a realização continuada”. E com a vantagem extra de ser “facilmente montável e desmontável, tanto para transporte quanto para ocultação para evitar que seja descoberta antes que esteja pronta para o uso.”

Pena que a invenção de Mr. Piro não funciona de maneira nenhuma caso você tenha um e somente um braço. Melhor pedir um abraço mesmo. Com ou sem tapinha nas costas.

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* ASSIM MESMO, EM MAÚSCULAS!

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