Lewis Carroll era um insone — e daqueles que passam a noite toda tendo ideias. Cartas, paradoxos, enigmas, experimentos mentais, contos… não importa. O que importa é que, para não perder todas essas ideias, ele costumava escrevê-las. Só que tomar notas no escuro gerava mais esgaratujas ilegíveis do que algo aproveitável na manhã seguinte. Claro que Carroll podia acender uma lâmpada, mas isso não era tão fácil naquela época. Ele não tinha luz elétrica e achava que o esforço de acender uma lamparina não valia a pena. Apesar da insônia, ele não gostava de se levantar da cama.

Até que, numa noite qualquer de 1891, lhe veio uma ideia luminosa. Carroll concebeu um cartão que com uma série de células quadradas para guiar sua escrita na escuridão. “Eu experimentei linhas de buracos quadrados”, escreveu ele mais tarde. “Cada um para uma letra (um quadrado de um quarto de polegada me pareceu um tamanho conveniente), mas as letras continuavam ilegíveis.”

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Como uma simples guia não era o bastante, o descobridor do País das Maravilhas inventou uma espécie de código, formado por pontos e linhas, um alfabeto para sua escrita noturna:

“Então, disse para mim mesmo: ‘Porque não inventar um alfabeto quadrado, usando apenas pontos nos cantos e linhas nos lados?’ Logo percebi que, para tornar a escrita legível, era necessário saber onde cada quadrado começava. Isso eu resolvi com a regra de que cada letra-quadrado deveria ter um grande ponto preto no canto N.W. [noroeste, ou seja, superior esquerdo]. […] Consegui que 23 delas [as letras quadradas] tivessem alguma semelhança com as letras que representam.”

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Ele chamou o invento de Nyctograph, ou seja, Nictógrafo. E descreveu seu uso, considerando que seria útil para ensinar cegos a escrever:

Agora tudo o que tenho que fazer, se estou desperto e penso em algo que desejo registrar, é tirar debaixo do meu travesseiro um pequeno livro de anotações, dentro do qual guardo meu Nictógrafo, e escrever umas poucas linhas ou páginas; e, sem tirar as mãos da cama, posso guardar o livro e dormir novamente. Pense nas inúmeras horas solitárias que um homem cego passa sem fazer nada, quando ele poderia alegremente registrar seus pensamentos. Então você perceberá que bênção você poderia lhe dar ao presentear-lhe com um pequeno e ‘indelével’ livro-memorando, uma peça de papel-cartão com buracos quadrados e ensinando-lhe o alfabeto-quadrado.

Parece digno de patente, mas Carroll jamais tornou público o seu Nictógrafo. Talvez ele tenha percebido que só funcionaria com ele mesmo. Ainda que conseguisse escrever, um cego não conseguiria ler uma nictografia.

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