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Há muita coisa errada no mundo e um inventor é alguém que sempre busca consertar, de maneira criativa, pelo menos algum destes milhões de problemas. De tampas de privadas levantadas a adoção de crianças. Isto mesmo, adoção de crianças. Todo mundo sabe que em muitos casos há mais candidatos a pais adotivos do que crianças disponíveis (especialmente quando são crianças pequenas e brancas), mas como resolver isso? Que tal tentar um Método e Sistema para Permitir Consulta ao Público e Eleição de Pais Prospectivos em Procedimentos de Adoção em Rede Nacional. Apesar do nome burocrático, parece algo bastante democrático:

Um procedimento de adoção de uma criança é conduzido na forma de um game show televisivo e evento midiático online no qual casais competem entre si para ganhar a custódia legal da criança. Pais adotivos são selecionados usando um esquema de voto-por-telefone e/ou por Internet aliado a uma vigilância de 24 horas dos prospectivos pais, o que permite aos telespectadores e usuários de Internet inspecionar em detalhes os pais-concorrentes antes de votar no casal vencedor. A presente invenção supera as iniquidades das agências de adoção estatais ou privadas permitindo um processo de seleção mais justo ao mesmo tempo em que permite mais tempo e acesso na observação de um pool de prospectivos pais.

É exatamente o que você aí, do outro lado da telinha, está pensando: uma mistura de Troca de Família, Supernanny e Big Brother. Porque nenhuma emissora pensou nisso antes? Bem, em primeiro lugar porque o reality show que seria chamado de Criança Esperança Nobody’s Child já é marca registrada. Em segundo lugar, o formato todo está devidamente patenteado nos Estados Unidos sob número 2002/0091564 A1. O pedido foi feito em 11 de janeiro de 2001 e aprovado em 11 de julho de 2002. O nome do inventor será apresentado mais tarde para segurar nossa audiência. Não percam.

[Enquanto isso, vamos aos nossos patéticos (e imaginários) intervalos comerciais:

***Roda Vinheta: Estamos Apresentando — Patentes Patéticas***

“Está cansado de ter essas linhas de expressão sempre cansadas? Precisa levantar um pouco esses olhos? Todo mundo lhe diz que seu nariz precisa ser torneado? Não se desespere! Você não precisa entrar na faca para que sua cara entre em forma. Ligue agora e peça sua a Facial Muscles Exercise Mask. Músculos na cara ou seu dinheiro de volta!”

***Roda Vinheta: Voltamos a apresentar — Patentes Patéticas***]

É uma pena que não apareceu nenhum reality show sobre o processo de aprovação de patentes na febre de realities da virada do século. Seria interessante ver como esta patente foi aprovada. Ainda mais porque seu inventor foi uma estrela de TV dos anos 1980 e 1990. Antes de conhecê-lo, porém, vamos ver seus argumentos:

Procedimentos adjucatórios para adoções de crianças tem sido fonte de críticas devido às aparentes iniquidades quanto à seleção dos pais mais adequados para uma criança disponível para adoção. Além disso, a demanda de pais adotivos supera vastamente o suprimento de crianças recém-nascidas disponíveis para adoção. Como resultado, os prospectivos pais com melhores situações financeiras são muitas vezes escolhidos em detrimento de pais que podem possuir um caráter moral mais forte. Agências públicas de adoção também são menos propensas a conceder adoções a pessoas que vivem os chamados estilos-de-vida alternativos, como homens solteiros ou casais gays e lésbicos.

Parece muito justo facilitar o acesso à adoção de gente pouco bem-vista pela sociedade. Mas será que a melhor solução é submeter essa gente justamente à sociedade que os discrimina? Será que o melhor é fazer isso em rede nacional em um reality show televisivo? Nosso famoso inventor argumenta que os realities são mais justos em seus resultados do que a burocracia, seja ela estatal ou privada:

a votação por participação do público em eventos de radiodifusão tem resultado em resultados justificáveis e equitativos, como no caso do “Big Brother”, onde o participante que se acreditava o mais merecedor terminou sendo o vencedor correto. Adicionalmente, o sistema de consulta à audiência do programa “Who Wants to be a Millionaire” tem provado ser extremamente acurado, raramente caindo em casos onde o contestante pede à audiência para votar no resultado correto de uma questão.

Vamos discutir alguns aspectos disso, mas antes uma palavrinha sobre a Sofacademy 3000:

*** Vamos ao Balcão do Merchã ***

“Ô, da poltrona! Tu acha que esse seu sofá aí, de um só lugar, é lugar de descansar? Nada disso! Tu devia usar essa poltrona onde tu abunda pra se tornar menos abundante! Vamos, vamos, pedalando! pedalando! Remando! remando! O quê? Não dá pra se exercitar na tua poltrona? Chega de desculpa! Ligue agora e peça já sua Sofacademy 3000!!! A mais vendida do Brasil!!!”

*** Voltando do Balcão do Merchã***

Voltando ao nosso Caso de Família… Perdão.

Voltando à nossa Patente Patética de hoje, a da adoção por reality show, isso pode ser uma grande inovação, pode ser brilhante aos olhos de um produtor televisivo. Mas só se ele for muito estúpido em termos legais ou morais (o que não é muito raro, infelizmente). Escolher o final de uma narrativa dramática com ajuda do público (sdds Você Decide) é uma coisa praticamente inofensiva e nem um pouco imoral. Buscar criminosos em Linha Direta pode ser socialmente útil, ainda que seja assustador para as crianças. Dar um milhão de reais para o último que resistir ao confinamento numa casa (bem vigiada ou cheia de artistas ou numa fazenda) já não é assim tão moral (especialmente quando o público tende a recompensar mais os concorrentes a subcelebridade com pior comportamento), mas ainda é legal.

Dar uma criança como prêmio seria tão ilegal quanto imoral.

Se os aspectos morais de uma invenção não costumam ser levados em contas pelos escritórios de patentes, o aspecto prático deveria (ainda que nossa série demonstre que praticidade parece ser exceção e não regra na aprovação de patentes).

Embora seja tecnicamente perfeito e viável, um reality show de adoção não resolveria de maneira nenhuma os problemas que se propõe a resolver. Pouquíssimas crianças seriam beneficiadas. Isso se o fossem. Nada garante que uma adoção resolvida por milhões de pessoas ao longo de um game show de 10 semanas seria melhor do que a determinada por burocratas. O prazo seria menor que muitos processos legais, mas ao menos os burocratas têm critérios técnicos e objetivos, além do próprio reconhecimento legal.

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Uma tele-adoção dificilmente seria homologada pela Justiça, o que formaria uma família ilegal. Não é difícil imaginar a formação de um mercado de adoção ilegal, que oferecesse às emissoras não as crianças que realmente são órfãs, mas as mais bonitinhas (leia-se: os bebês branquinhos). E, ainda que ex-participantes de reality shows caiam rapidamente no esquecimento, nem vamos falar dos traumas que os bebês tele-adotados teriam ao longo da vida (além do próprio trauma de ser adotado).

*** Vamos ao Balcão do Merchã ***

Poderíamos nos estender por diversos parágrafos blocos discutindo tudo o que há de errado nesta Patente Patética. Mas agora vamos falar de coisa boa: que tal relaxar fumando um Gingkoro, o mais puro cigarro de Gingko Biloba? Ligando agora você ainda ganha um exclusivo Chapéu-Exaustor para não ser incomodado pelos caretas.

*** Voltando do Balcão do Merchã***

No parágrafo final desta Patente Patética, uma revelação bombástica:

***PAUSA DRAMÁTICA. MÚSICA AINDA MAIS DRAMÁTICA***

O inventor deste reality show/orfanato é ninguém menos que Uri Geller. Aquele mesmo, que dizia ter poderes sobrenaturais, entortava colheres e recusou o desafio de paranormal um milhão de dólares de James Randi. Felizmente (ou não, se você for o Uri Geller) os produtores de TV têm alguns escrúpulos e esse reality show nunca saiu do papel.

***DOIS MERCHÃS BEM CHATOS DEPOIS***

E termina aqui mais um episódio das Patentes Patéticas. Até a próxima semana!

***VINHETA DE ENCERRAMENTO. FIM.***

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