As memórias mais intensas, dizem, são despertadas por aromas. O que é irônico pois aromas são, por sua própria natureza química, efêmeros. Você não pode simplesmente ir a um museu e descobrir, digamos, como era o odor da colônia usada pela sua bisavó ou o último perfume de Napoleão Bonaparte — a não ser que você esteja na França, mais precisamente em Versalhes, mais precisamente na Rue du Parc de Clagny, nº. 36, de preferência numa quarta-feira.

Osmothèque

Ali, num prédio de linhas modernas que divide o terreno com um edifício mais clássico, fica a Osmothèque. Como o próprio nome — do grego osmo e theke — indica trata-se de um depósito de odores, um arquivo de cheiros. Fundada em 1990 por Jean Kerléo e Patricia de Nicolai e mantida pela Societé Française des Perfumeurs, a Osmoteca é mais um museu de perfumes do que de cheiros. Mais de três mil fragrâncias estão arquivadas ali. Mas como arquivar cheiros?

Se os melhores perfumes vêm nos menores frascos, os mais antigos também. As relíquias olfativas da Osmoteca são armazenadas no subsolo, em vidros escuros e mantidos exatamente a 12º. C. Para dificultar a oxidação das amostras os espaços vazios dos frascos são preenchidos com argônio, um gás nobre, inodoro e inerte. Amostras de ervas aromáticas são guardadas em potes hermeticamente fechados.

Osmothèque - cases

A maior parte do acervo de 3000 amostras e 400 fórmulas de perfumes é dos séculos XIX e XX, quando a delicada arte de compor fragrâncias passou a ser industrializada: Le Trèfle Incarnat (1896), Rose Jacqueminot (1903), Narcisse Bleu by Mury (1920), Nuit de Noël by Caron (1922), Cuir de Russie by Chanel (1924).

Osmothèque - vault

Perfumes famosos ou contemporâneos como o No. 5 de Chanel (1921) e o Polo Ralph Lauren (1978) também fazem parte da coleção. Entretanto é possível surpreender-se ao sentir odores seculares nesse museu de perfumes — de uma colônia romana do século I à medieval Eau de la Reine de Hongrie e o último perfume de Napoleão Bonaparte.

Além dos perfumes em si, a Osmoteca guarda uma coleção de tudo relativo à arte perfumista: frascos, matérias-primas, ervas aromáticas, receitas e livros sobre o tema. Evidentemente, nem toda amostra líquida é original. A maior parte é recriada a partir de receitas antigas, muitas vezes descobertas por acaso por historiadores ou perfumistas amadores.

A Osmothèque oferece sessões com palestras — apenas em francês — e visitas guiadas — com direito a amostras em mouillette, aquelas tiras de papel com um pouquinho de perfume — às quartas-feiras (eventualmente aos sábados). Os ingressos custam de 10 a 15 euros. Nos demais dias a instituição funciona como centro de estudos especializados em cosmética e perfumaria. Mais informações no site do museu.

[via Atlas Obscura, com imagens deste vídeo]

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