http://www.google.com/patents/US4942044

Com exceção das pizzas, a cozinha italiana está longe de se adaptar à lógica do fast food. Você pode até conseguir uma macarronada quase instantânea em alguns restaurantes mas vai demorar ao consumi-la enrolando educadamente a massa no garfo ou mesmo com garfadas mais agressivas. Se você for apressado a ponto de tentar fazer isso andando, vai perceber que comer macarrão sem se sujar é uma missão impossível. Mas já faz um bom tempo que um ítalo-americano bolou uma solução para isso. Basta ter apenas um

um dispositivo para servir produtos de pasta preparados compreendendo, em combinação, (1) um contêiner com uma extremidade aberta, (2) uma tampa removível para fechar a extremidade aberta do dito contêiner e (3) meios para remover a pasta por sucção, [com o auxílio de um] mecanismo em pinça posicionado no interior […] para evitar que a pasta preparada retorne ao dito contêiner, sendo que quando a sucção é aplicada à abertura exterior do dito meio comunicante a pasta é extraída do dito contêiner, mas quando a sucção é aliviada, a dita pasta é mantida no lugar pela ação de pinçamento da dita pinça.

Capisce? O Spaghetti sipper [Sorvedouro de espaguete] patenteado por Nicholas A. Ruggieri não é muito diferente de um dispenser de sabonete líquido (talvez essa tenha sido a inspiração). A única diferença é que em vez de apertar um botão que suga sabonete líquido, você sorve o macarrão por um tubo.

Morador de Rochester, Nova York, Ruggieri apresenta argumentos interessantes em favor de algo que parece um pote de macarrão com canudo. Segundo o inventor,

O público em geral é inclinado a comer enquanto anda. Isso é rapidamente perceptível ao observar as pessoas que frequentam feiras e exposições bem como centros de compras ou mesmo as que passam pelas calçadas. O público consome vastas quantias de bebidas carbonadas, batidas ou achocolatados, sorvetes, hambúrgueres, cachorros-quentes, espetinhos de frango, pipoca e similares enquanto anda. Entretanto, por causa da natureza dos pratos de pasta, não tem sido prático comer pasta enquanto se caminha. Dada a chance do público consumidor comer pasta e comer enquanto anda, há uma necessidade de se prover meios práticos para comer pasta enquanto se anda.

Essa eloquência digna de oradores romanos bastaria para a aprovação da patente. Mas tem mais. Depois desse pequeno tratado antopológico-gastronômico pós-moderno (ou não), Ruggieri descreve a pasta, definindo-a como

um termo genérico que se refere a todos os spaghetti, macaroni e noodles. Existe em mais de 100 formatos e tamanhos, alguns de fácil preparo doméstico. Spaghetti é uma barra sólida, disponível em várias espessuras bem como com um formato ondulado. Liniguini e fusilli são dois formatos favoritos. Macaroni é tubular, longo ou curto, curvo ou reto; também existe em formas especiais como conchas e saca-rolhas [corkscrews no orig.]. Ziti e rigatoni estão entre os estilos mais populares. Noodles são comumente achatados. As pastas preferida para uso nesta invenção são do tipo spaghetti e macaroni, sendo particularmente preferido o spaghetti. O meio de sucção para o porta-pasta 10, 20 deve ter o tamanho adequado à pasta servida.

Pastético! Passando ao aspecto prático da invenção, o modo de uso é muito simples: esqueça os modos que a sua nonna ensinou. Em vez disso, saia andando atarantado por aí e sugue, sorva, enfim, chupe o macarrão:

A pessoa come a pasta ao colocar sua boca no bocal 23 ou tubo 13, sugando a pasta para cima. Quando a quantia de pasta desejada é obtida, a pessoa corta a pasta com os dentes e então consome a pasta da maneira usual. Ao ser cortada, a pasta é mantida no bocal 23 ou tubo 13 pelo mecanismo de pinça 14b, 24b. Ao desejar mais pasta, a pessoa repete a sequência.

Não é bem um pote de macarrão com canudo, portanto. A sucção da macarronada, observa o inventor, é facilitada pelo fato de que “a massa, após o cozimento, é um tanto maleável e lúbrica”, o que pode ser melhorado pelo uso de “qualquer um dos molhos tradicionalmente associados à massa […], [o que] tipicamente incrementa a lubricidade da massa.”

Infelizmente, para os bambinos que comem na rua, essa é mais uma das invenções que não saiu dos papéis. Sim, papéis, no plural mesmo. Graças a um processo enrolado feito espaguete no garfo, Ruggieri recebeu duas patentes, diferentes apenas quanto às reivindicações. A segunda patente, na verdade, deveria ter sido a primeira pois foi depositada em 25 de setembro de 1985.

Porém, por algum motivo desconhecido, Ruggieri não conseguiu convencer o USPTO sobre sua prioridade (talvez o USPTO tenha perdido seus documentos), então o inventor ítalo-americano teve que entrar com um segundo pedido em 19 de setembro de 1988. Esse segundo pedido se tornou a primeira patente, aprovada em 2 de janeiro de 1990 sob nº. 4.891.234 [pdf]. Pouco mais de seis meses depois (quando os documentos do pedido original devem ter sido encontrados), o primeiro pedido virou a segunda patente, registrada sob nº. 4.942.044 [pdf], em 17 de julho de 1990.

Essa dupla proteção deve ter atrapalhado as tentativas de licenciamento para viabilizar comercialmente o invento. Ruggieri acabou ficando sem dinheiro e as duas patentes expiraram em 1998 por falta de pagamento da anuidade. O que é uma pena, pois seu sorve-pasta daria um novo significado a “macarrão ao sugo”. Ou melhor, macarrão eu-sugo.

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