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Barquinho bate-bate.

“Os carros são como as lanchas, as motos são como os jet-skis e os pedestres são como banhistas”. Ao que poderíamos acrescentar que os navios são como os caminhões (quando de carga; quando de passageiros são como os ônibus) e os recifes (ou icebergs) são como os buracos da estrada. Muito antes do viral da Marinha do Brasil — e quase dez anos antes do Titanic —, Charles Dornfeld percebeu que “no mar também ocorrem acientes”. Na tentativa de evitá-los, Dornfeld entrou com um pedido de patente para uma espécie de amortecedor submarino:

Em combinação com um navio a vapor, equipado com um aríete que se projeta de uma câmara com um tronco de árvore [ou haste; stem no orig.] abaixo da linha-d’água, um pistão deslizável montado montado em tal êmbolo e projetando-se além do mesmo; meios tensionais por trás do dito pistão para mantê-lo em sua posição projetada; um segundo pistão com uma cabeça que se projeta além de sua câmara, montado secundariamente dentro do primeiro pistão, com sua haste em sua base projetando-se no interior das câmaras do aríete; um dispositivo interruptor operado pela dita haste e um circuito elétrico controlado pelo dito interruptor e atuante sobre um dispositivo o qual possa reverter substancialmente os motores do navio, como demonstrado.

Esta descrição bem clara é apenas a primeira das duas reivindicações de Charles Dornfeld, um “súdito do Imperador da Áustria-Hungria residente em Nova York, no condado e estado de Nova York”. Mais que um amortecedor para navios, o Grounding-Preventer for Marine Vessels [algo como Preventor de Encalhe para Naves Marítimas] de Dornfeld é um grande botão de pânico situado na proa. Seu funcionamento é automático e relativamente simples:

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Quando a nave 1 entra em contato com qualquer objeto sólido, a cabeça 15 é forçada para dentro do recesso 12, empurrando a barra 14, da qual a cabeça 14a aciona o interruptor 17 e opera o dispositivo que é empregado para reverter os motores.  O pistão 8, agora apoiado sobre tal objeto, permite que haja tempo para que a ação de reversão dos motores afete o movimento do navio antes que a quilha acerte tal objeto, impedindo assim a danificação da nave 1 ou o seu encalhe. Assim que ela (a nave) recua, as molas 10 e 16 restauram o pistão 8 e a cabeça 15 para suas posições normais, estando prontos para serviços similares na próxima ocasião.

Portanto, assim que o nosso navio-caminhão cai no buraco (seja recife ou iceberg), ele dá marcha-a-ré sozinho. Seria um verdadeiro portento — ainda mais numa época sem piloto-automático —, mas evitar uma colisão ou um encalhe não é assim tão simples. Como um navio é uma coisa enorme e com uma massa imensa um simples amortecedor (ainda que bem grande) não vai ser capaz de evitar o encalhe e/ou naufrágio. O ideal seria aplicar o reverso bem antes do toque e não no momento exato do contato da embarcação com o obstáculo.

Mesmo que o amortecedor marítimo funcionasse instantaneamente como meio para reverter a todo vapor e evitar colisões, ele seria pouco aproveitável. A não ser que o mecanismo esteja ilustrado fora de escala na patente, ele seria tão volumoso que atrapalharia a navegação de diversos modos. A tonelagem e o arrasto hidrodinâmico aumentariam, implicando maior consumo de combustível (carvão, no caso). O calado também cresceria, dificultando o acesso do navio equipado com o amortecedor em águas mais rasas.

Além disso, é difícil fazer manobras de emergência em navios propulsionados por hélices. Embora tenha ignorado a inércia, Dornfeld percebeu isso e ainda propôs um tipo alternativo de propulsão, baseado no parafuso ou rosca-sem-fim: “Em vez de um propulsor [hélice], porém, eu monto um ou mais parafusos 2 em suportes adequados nas laterais da nave 1 e paralelamente a ela.”

Com uma rosca proulsora de cada lado, o sistema de Dornfeld seria como uma esteira ou lagarta submarina (e o navio assim equipado seria como um tanque de guerra para a Marinha). No entanto, o uso de roscas-sem-fim poderia complicar as manobras, em vez de agilizá-las. Dornfeld imaginava que para reverter o navio, bastaria reverter o giro das roscas. Isso até funcionaria caso fosse necessário dar ré em linha reta, mas para fazer uma manobra de recuo com uma curva (para bombordo ou estibordo) seria preciso que a rosca de um lado girasse para trás e a do outro para frente.

É nesse ponto que a patente do nosso súdito áustro-húngaro se torna duplamente patética. Dornfeld estava tão focado no amortecedor e no sistema automático de reversão que não percebeu o potencial da propulsão pela rosca-sem-fim. Sua patente — de número 721.677 [pdf], aprovada em 3 de março de 1903 — é uma das primeiras (se não a primeira) a propor a aplicação desse tipo propulsão para navios. Mais de 20 anos mais tarde, John K. Larson patenteou um sistema similar de roscas de propulsão para uso “na terra e no ar”. Larson não cita a patente de Dornfeld (provavelmente já expirada), mas é possível que tenha sido inspirado por ela.

De qualquer modo, a propulsão por roscas-sem-fim não parece ter tido muito êxito no meio aquático (eu diria que foi pela baixa viscosidade da água e pela baixa manobrabilidade dos parafusos, menos articuláveis que as hélices). Mas parafusos flutuadores podem ser bons meios de propulsão para veículos anfíbios. Mais sobre esse tipo de propulsão aqui. Um exemplo de aplicação anfíbia pode ser visto aqui.

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