Não faltam experimentos de um único voluntário na História da Ciência. Nem experimentos em que a linha entre pesquisador e pesquisado é bem tênue. Também não são poucos os créditos mal-atribuídos pela participação em uma pesquisa. Um caso com todas essas características aconteceu em 1954, na Universidade de Londres.

cooper malaria watercolorsAo estudar o protozoário Plasmodium ovale — causador da malária terçã — o parasitologista William Cooper (1900-1964) foi quem se voluntariou para receber as picadas de cerca de mil mosquitos Anopheles. Nove dias depois, ele passou por uma laparotomia, uma operação para extrair uma amostra de seu fígado. Após receber alta, Cooper voltou ao laboratório e foi ele mesmo que fez secções na amostra, localizando os diversos estágios do parasita da malária em seu próprio tecido. Na falta de fotografias coloridas de alta resolução, Cooper também teve que pintar as aquarelas que ilustraram o paper (e este post).

Embora tenha literalmente dado o sangue (e um pedaço do fígado) por uma pesquisa, William Cooper não recebeu os devidos créditos. Ele não foi listado com autor principal do paper, publicado pela revista Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene em março de 1955. A honra da autoria principal coube, na verdade, a um dos co-autores, o protozoologista Percy Cyril Claude Garnham (1901-1994), também da Universidade de Londres. O critério da ordenação dos nomes dos autores — um assunto sempre complicado — parece ter sido a fama mesmo, pois P.C.C. Garnham já era bastante conhecido na época. Além de Cooper e Garnham, outros quatro pesquisadores colaboraram: R.S. Bray, Ralph Lainson (que mais tarde viria pro Brasil), F.I. Awad e J. Williamson.

Sobre o caso, Garnham escreveu que Cooper “alcançou fama eterna por este episódio” de sacrifício pela Ciência. Pode até ser, mas até hoje Garnham ainda é um dos autores mais lembrados por sua pesquisa sobre a malária. O pobre Cooper não tem sequer um artigo na Wikipédia.

Referência
rb2_large_gray25P.C.C. Garnham et al., “The Pre-Erythrocytic Stage of Plasmodium Ovale,” Transactions of the Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene 49:2 [March 1955], 158-167. DOI: http://dx.doi.org/10.1016/0035-9203(55)90042-0

[via Futility Closet]

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