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Aprender a nadar é algo que exige tempo e paciência. Primeiro o aluno precisa aprender a boiar, depois a fazer os movimentos adequados dos braços e pernas de maneira sincronizada. De fundamental importância é aprender a respirar – digo isso por experiência própria: depois de passar dez anos longe das piscinas eu voltei a nadar recentemente e me lembrava bem dos movimentos, mas não conseguia respirar direito e perdia o fôlego depois de poucos metros.

Ensinar a nadar é algo que exige tempo, paciência e algum grau de contato físico. Esse contato físico não costuma ser problema, a não ser que você viva de maneira puritana em plena Era Vitoriana. Nesse caso, o contato físico numa aula de natação é um problema tão sério que merece ser resolvido com uma invenção mecânica, o Device for Teaching Swimming [Dispositivo para Ensino de Natação]:

Esta invenção está relacionada ao aperfeiçoamento de máquinas para instruir pessoas na arte da natação, e consiste num suporte ou numa estrutura adequada para ser colocada num tanque de natação ou piscina ou mar aberto, sendo nela [a estrutura] montados suportes para o corpo e suportes para os braços e pernas, suportes os quais são restritos em movimentos de trajetória praticamente correspondente àqueles realizados por um nadador, tendo os ditos suportes de braços e pernas mecanismos para transmitir aos mesmos os seus movimentos.

Há pessoas que têm medo da água e não aprendem a nadar. Há pessoas que têm medo do “mesmo” e buscam sinônimos melhores. E há (ou havia) pessoas como James Emerson, que temem(iam) contato físico e preferem(iam) substitui-lo por uma manivela. Nativo de Williamansett, Massachussetts, Mr. Emerson deve ter sido um misto de pastor e professor de educação física.

Em sua patente, Emerson descreve minuciosamente a combinação de eixos, manivelas, suportes e engrenagens que ensinariam o aluno a nadar, nem que fosse de modo bem mecânico. Não há nenhuma palavra sobre os motivos que o levaram a invenção, mas dado o contexto puritano de sua época e de seu lugar (a Nova Inglaterra do século XIX), é bem provável que o problema que ele tentava resolver tenha sido mais de ordem teológica do que técnica ou pedagógica. Isso fica mais explícito nas figuras do que no texto da patente. As Figuras 1 e 2 da patente nº. 563.578 [pdf], emitida em 7 de julho de 1896, deixam bem claro o puritanismo de Mr. Emerson: em ambas as ilustrações a figura humana é uma mulher.

Embora essa “máquina de evitar contato físico” esteja correta para os padrões puritanos da época, não seria muito útil dos pontos de vista mecânico, ergonômico e pedagógico.

Em primeiro lugar, o mecanismo todo é composto de peças metálicas. Numa época em que não havia aço inoxidável (que só surgiria duas décadas depois), a geringonça se tornaria rapidamente inútil. Por mais bem pintado que fosse, o mecanismo de ferro não tardaria a enferrujar. O próprio peso das peças de ferro tornaria o suporte de Emerson pouco portátil — colocá-lo e tirá-lo da água não seria moleza nem para um professor mais “bombado”.

A ergonomia para a(o) aluna(o) também não seria das melhores. Embora a prancha B, que serve de suporte ao corpo (ou ao quadril, pra ser mais exato), seja longitudinalmente regulável, seu tamanho parece ser padronizado. O suporte C, para as axilas, também não seria confortável: era fixo e, aparentemente, não tinha nenhum estofamento – era pouco mais que um a muleta metálica.

Por fim, a coisa toda se torna uma muleta metálica, que literalmente prende o aluno para forçá-lo a aprender em vez de prender sua atenção para fazê-lo se esforçar. Forçar os movimentos num mecanismo com sérios riscos de ferimentos não é o melhor tipo de pedagogia aquática. Ainda que seja um método de ensino engenhoso, o sistema Emerson seria desconfortavelmente desestimulante para o aprendiz, talvez mesmo para o mais medroso diante da água.

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