Iconoclasma na Guerra Civil Inglesa [gravura do séc. XVII]

Em Sunbury derrubamos dez anjos grandalhões de vidro. Em Barham, derrubamos os doze apóstolos da chancela e outras seis imagens supersticiosas por ali; e oito na igreja, das quais uma era um cordeiro com uma cruz (+) nas costas; extraímos os pedestais e tiramos quatro inscrições supersticiosas de bronze […] Na casa de Lady Bruce, na capela, havia uma imagem de Deus-Pai, uma da Trindade, uma de Cristo e uma do Espírito Santo, que nós demos ordem de serem derrubadas e a senhora prometeu fazê-lo. [Em outro lugar foram] quebrados seis centenas de imagens supersticiosas, oito Espíritos Santos, e três do Filho.

Esse fanatismo todo foi descrito sem pudores no diário de William Dowsing (1596-1668), soldado e puritano inglês célebre pela iconoclastia. No entanto, Dowsing não foi terrorista religioso agindo de modo autônomo. Como militar e no contexto da Guerra Civil Inglesa (1642-1651), ele foi nomeado para o cargo de “Commissioner for the destruction of monuments of idolatry and superstition” [Comissário para a destruição dos monumentos da idolatria e superstição]. Nesse cargo, entre 1643 e 1644, Dowsing destruiu cerca de 250 templos nas regiões de Cambridge e Suffolk. Por sua atuação, acabaria cognomado Basher [o Esmagador].

Em 1835, Isaac D’Israeli (1766-1848) reproduz alguns trechos do diário em seu Curiosities of Literature, concluindo que “Tem sido humoristicamente conjecturado que desse devastador originou-se a frase give a dowsing [= chutar o pau da barraca]”. Ironicamente, Dowsing, o iconoclasta, acabou tornando-se um ícone linguístico. Ou não, já que dowsing é o nome que os ingleses dão à radiestesia, a pseudo técnica de buscar água com um pedaço de pau.

Quanto ao diário do iconoclasta, só seria publicado na íntegra em 1885 e novamente em 2001. A versão oitocentista está disponível on-line.

Referências

D’ISRAELI, Isaac. Curiosities of Literature [Curiosidades da Literatura], Vol. I. Paris: Baudry’s European Library, 1835.

WHITE, C. H. Evelyn, The journal of William Dowsing of Stratford, parliamentary visitor, appointed under a warrant from the Earl of Manchester, for demolishing the superstitious pictures and ornaments of churches. [O diário de William Dowsing, de Stratford, visitador parlamentar, apontado sob mandado do Conde de Manchester para a demolição de imagens e ornamentos supersticiosos das igrejas] Ipswich: Pawsye and Hayes, 1885.

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