Volume acorrentado na Biblioteca de Cesena. [extraído da p. 48 de Clark (1894)]

Não era à toa que os livros das bibliotecas medievais costumavam ser acorrentados em suas estantes. Isso evitava a perda ou roubo de obras equivalentes a verdadeiras fortunas:

Houve épocas em que, pela posse de um manuscrito, havia quem transferisse uma propriedade, ou deixasse como caução pelo empréstimo centenas de coroas [moedas] de ouro; mesmo a venda ou empréstimo de um manuscrito era considerada de tal importância que devia ser solenemente registrada em atas públicas. Por mais absoluto que fosse, Luís XI [1423-1483, reg. 1461-83] não pode obter da biblioteca da Faculdade de Paris o manuscrito de Rasis [c. 865-925], autor árabe, para fazer uma cópia. Não sem uma centena de coroas de ouro em caução. E seu tesoureiro, encarregado dessa comissão, vendeu parte de sua prataria para fazer o depósito. Pela retirada de um volume de Avicena [c. 980-1037] um Barão ofereceu em garantia 10 marcos de prata, que foram recusados, por não valerem o risco de perder um volume de Avicena! Esses eventos ocorreram em 1471. E não podemos deixar de rir de um período anterior, quando a condessa de Anjou [possivelmente Marie de Blois, 1345-1404] comprou um livro de suas homílias favoritas por duzentas ovelhas, algumas peles e cestos e mais cestos de trigo e centeio. […]  (D’ISRAELI, 1835)

Em suas deliciosas Curiosities of Literature, Isaac D’Israeli (1766-1848, pai do Benjamin) ainda relata dois causos de pequenas fortunas livrescas: o de um “estudante de Pávia, falido, [que] conseguiu uma pequena fortuna ao penhorar um manuscrito de um corpo de leis” e o de um “gramático, arruinado por um incêndio, [que] reconstruiu sua casa desfazendo-se de dois pequenos volumes de Cícero.”

Referências

Texto:

D'ISRAELI, Isaac. Curiosities of Literature [Curiosidades da Literatura], Vol. I. Paris: Baudry’s European Library, 1835.

Gravura:

CLARK, J. W. Libraries in the Medieval and Renaissance Periods: the Rede Lecture, delivered June 13, 1894 [Bibliotecas nos Perídos Medieval e Renascentista: a Palestra Rede, apresentada em 13 de Junho de 1894]. Cambridge: Macmillan and Bowes, 1894. Fig. 7, p. 48.
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