aquecedor de pé frio

Não importa se é no interior de São Paulo ou na Califórnia — dois lugares com invernos nada rigorosos —, sempre tem alguém que sofre com os pés frios durante o inverno. Das diversas invenções aplicáveis a pés frios, o Heating Apparatus for Boots or Shoes [Aparato de Aquecimento para Botas ou Sapatos] é uma solução mais high-tech do que aquele aquecedor a baforadas que apresentamos nos primórdios desta patética série. Embora não seja tão sofisticado quanto o pé condicionado, esse sistema de aquecimento pedal é bastante promissor, sendo formado por:

um dispositivo para indução de um grau de aquecimento aos pés e consiste em um anexo aquecedor fixado no interior dos saltos das botas ou sapatos e conectado a cabos ou placas que se estendem a partir dali, de modo a conduzir o calor que pode ser desenvolvido [sic; no original lê-se ‘developed’ em vez de ‘distributed’] a outras partes do calçado.

O elemento aquecedor “pode consistir de um material de lento consumo que emitirá calor por um intervalo de tempo considerável, sendo este material introduzido na cavidade [cilíndrica] do salto”. Material de lento consumo, que libera calor por longos períodos? Seria um sapato com aquecimento nuclear? Mais uma daquelas ideias malucas envolvendo energia atômica dos anos 1950?

Não seria nada disso, caro leitor. Pelo simples fato de que estamos citando de uma patente registrada por Frank Batter no USPTO em 14 de outubro de 1887 e aprovada 15 de maio de 1888, sob nº 382.681 [pdf]. Antes, portanto, da descoberta de qualquer elemento radioativo ou da miniaturização de reatores nucleares.

382681

Mr. Batter, nativo de Slide, na ensolarada Califórnia, cita apenas de passagem essa fonte de energia baseada em “material de lento consumo que emitirá calor por um intervalo de tempo considerável”.

Mas a principal fonte de energia e a única claramente descrita por Mr. Batter é algo mais banal: “O interior dessa cavidade contém um cilindro metálico C e no interior deste está um segundo cilindro concêntrico, D, […].” A fonte de calor, como podem perceber, seria baseada no atrito por fricção desses cilindros. Ou, para ser mais detalhado:

aquecedor por fricção

No presente caso, apresento uma forma de aquecedor que consiste de um condutor interno de prata ou outro bom condutor, H, que se ajusta no interior do cilindro D, e que tem um pedúnculo ou haste, I, que estende-se para fora até a extremidade da abertura da câmara no interior do salto e cuja extremidade externa sendo quadrada ou de outro modo ajustada para receber uma chave ou manopla [Fig. 4] para que possa ser girado. A extremidade interior deste cilindro H tem anexa uma peça semi-globular de metal, J, e esta encaixa-se numa peça de forma correspondentemente côncava, K, a qual é fixa no interior do cilindro D. Uma mola espiral, O, pressiona a parte traseira de K e assim mantém um contato apropriado entre as duas superfícies de fricção. Essas superfícies de fricção são destacáveis, de modo que possam ser substituídas a qualquer momento quando se tornam gastas.

Ou, sendo menos detalhado: é mais ou menos como se fossem duas balas de metal, dessas de arma de fogo. Só que é uma dentro da outra, e ambas dentro de um buraco no salto da sola. A menor e mais interna dessas balas teria espinhos ou pêlos duros para gerar atrito e ambas seriam acionadas por uma chave de corda.

O calor do atrito gerada pela fricção dessas peças seria distribuído pela sola interna do calçado por meio de condução através de uma rede de “fios, feitos, preferencialmente, de cobre, prata ou outro bom condutor” de calor. Opcionalmente poderia haver um “aquecedor artificial” na forma de um cigarro, um fósforo ou mesmo um pequeno pedaço de ferro em brasa que poderia ficar no lugar da bala menor, aquecendo a bala maior, sua câmara e os fios à sua volta. Devem ser esses “aquecedores artificiais” os supracitados materiais de emissores de calor lento consumo.

Por essas e outras, Frank Batter é um quase-gênio. Ele poderia (menos provavelmente) ter descoberto o aquecimento nuclear com anos de antecedência, mas não percebeu a potencialidade dessa ideia de uma substância ou elemento que libera calor natural e lentamente ao se decompor. Ele poderia (mais provavelmente) ter sido o primeiro a miniaturizar pilhas elétricas, mas preferiu apostar no simples aquecimento por fricção e/ou brasa.

Pelo menos nosso patético inventor reconheceu que “apenas uma pequena quantia de calor pode ser gerada por esse dispositivo”, ainda talvez esse pouco de calor fosse “o suficiente para deixar os pés confortáveis e prevenir muitos dos resultados consequentes dos pés frios”.

Exceto no caso de bolões da Copa do Mundo. Nesse caso não há aquecedor de pé frio que dê jeito…

***

P.S.: Curiosamente, Batter não foi inteiramente esquecido. Oitenta anos depois de ser registrada, sua patente foi citada como antecedente em uma patente da NASA referente um sistema de troca de calor para trajes espaciais. Vide as referências da patente nº. 3.425.487, de 4 de fevereiro de 1969. Talvez Batter fosse um gênio preso na época errada…
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