Asplenium Braziliensis, by Anna Atkins (c. 1854)

Asplenium Braziliensis, by Anna Atkins (c. 1854)

Tonbridge, Kent, Inglaterra. Na virada de 1799 para 1800 nasce uma criança e morre uma mãe. A mãe, Hester Anne Children, não se recupera do parto de uma menina e morre nas primeiras semanas do novo ano. A menina, batizada de Anna Children, é criada zelosamente pelo pai, John George.

Mas John George Children (1777-1852) não era um personagem de romance oitocentista. Estava mais para personagem de ficção científica (gênero que, tecnicamente, nem tinha nascido ainda). Verdadeiro polímata, com especial interesse por química, mineralogia e zoologia, Mr. Children foi zeloso na educação da filha.

A pequena Anna foi apresentada aos mais diversos campos de estudo pelo pai, recebendo uma educação científica incomum para as meninas da época. John George via em Anna uma boa assistente. E uma excelente ilustradora. Foram feitas por ela as gravuras de conchas que ilustraram Genera of Shells, tradução de uma obra de Lamarck publicada por John em 1823.

Dois anos mais tarde, a jovem Anna casou-se com outro John, John Pelly Atkins (1790-1872). Após se mudar para a casa da família do marido, Anna Atkins mergulhava nos estudos botânicos. Mrs. Atkins passou a coletar e colecionar espécimes de plantas e algas, que eram ressecados, ilustrados e descritos.

Tanto o pai como o marido de Anna eram amigos de William Henry Fox Talbot (1800-1877), pioneiro da fotografia na Inglaterra. Foi com Talbot que Anna aprendeu duas novas técnicas de ilustração: o “desenho fotogênico” (no qual o objeto a ser desenhado é pressionado sobre um papel sensitizado; exposto ao sol, o papel produz uma imagem do objeto pressionado) e o calótipo (primeiro sistema com imagens facilmente reprodutíveis).

Anna_Atkins_1861

Anna Atkins (1861)

Assim, há indícios de que Anna tenha manejado uma câmara fotográfica por volta de 1841. Isso faria de Mrs. Atkins a primeira fotógrafa da História. Outros, porém, afirmam que a primeira mulher a fotografar foi Constance Talbot, esposa de William Talbot. No entanto, é impossível confirmar qualquer primazia:  nenhuma foto feita por Anna ou Constance resistiu ao tempo.

Em 1842, Sir John Herschel (1792-1871) — outro amigo dos Atkins e de John George Children — inventou outro processo de reprodução e impressão de fotografias, o cianótipo (basicamente, é a impressão monocromática em tons de azul). No ano seguinte, Anna já domina o novo processo e decide aplicá-lo ao registro de algas, fazendo fotogramas por contato, pressionando algas ressecadas diretamente sobre o papel sensitizado.

Anna_Atkins_algae_cyanotype

Dictyota dichotoma, by Anna Atkins. (1843)

Ainda em 1843, Anna Atkins junta os seus primeiros fotogramas e o publica sob o título Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions. Embora tenha havido poucas cópias — todas com texto manuscrito —, Photographs of British Algae é considerado o primeiro livro ilustrado com imagens fotográficas. Em escala comercial, essa primazia editorial cabe a William Talbot, cujo Pencil of Nature foi publicado em junho de 1844.

Anna_Atkins_Title_Page_of_Photographs_of_British_Algae_Cyanotype_Impressions_(Detail)

Durante os dez anos seguintes, Anna Atkins produziu — ainda de maneira artesanal e limitada — mais dois volumes de Photographs of British Algae. Apenas 17 exemplares dessa obra pioneira sobreviveram. Os mais completos pertencem à British Library (com 429 páginas, já foi digitalizado) e à Royal Society (com 403 páginas e 389 ilustrações fotográficas, é considerado como a edição tal como planejada pela autora). Mais que o pioneirismo editorial, a obra de Atkins é importante por estabelecer a fotografia como mídia para registro de informações científicas.

Anna_Atkins_-_Foreign_Ferns_-_Google_Art_Project

Ainda durante os anos 1850, em colaboração com Anne Dixon (1799-1864), Anna Atkins publicou mais duas obras científicas com ilustrações cianotípicas: Cyanotypes of British and Foreign Ferns (1853); Cyanotypes of British and Foreign Flowering Plants and Ferns (1854), do qual só restam algumas folhas soltas espalhadas por alguns museus do mundo.

Outros livros foram publicados por Anna Atkins nos anos 1850 e 1860, mas sem ilustrações fotográficas (vide bibliografia a seguir). Destes, o mais importante é uma memória biográfica de seu pai, publicada em 1853. Uma fotografia tirada em 1861 é a única imagem que resta de Anna Atkins. A fotógrafa, ilustradora, escritora e botânica faleceu em 1871, aos 72 anos, vítima de reumatismo e paralisia.

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Bibliografia

ATKINS, Anna. The perils of fashion. London, 1852.
ATKINS, Anna. The Colonel. A story of fashionable life. By the author of "The perils of fashion." London: Hurst & Blackett, 1853.
ATKINS, Anna. Memoir of J.C. Children, including some unpublished poetry by his father and himself. London: John Bowye Nichols and Sons, 1853.
ATKINS, Anna. Murder will out. A story of real life. By the author of "The colonel," etc. London, 1859.
ATKINS, Anna. A page from the peerage. By the author of "The colonel." London, 1863.
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