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Múltiplos são os usos da toalha, segundo o cap. 3 do Guia dos Mochileiro das Galáxias. Além de servir como artefato de enxugamento corporal, esse pedaço de tecido felpudo retangular pode ter mil e uma utilidades, do uso como arma ofensiva — “pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo” — ao uso como abrigo “nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V”. Na literatura não-dupal, já registramos seu uso como vestido com bolsos (e não estamos falando de roupões). Mas nem todo mundo ama toalhas felpudas (e úmidas). Gerard A. Forster é um desses antipatizantes deste utensílio têxtil. Tanto que ele propõe a completa abolição da toalha e sua substituição por um Body Squeegee ou Rodo Corporal, formado por:

[…] uma porção luva, uma lâmina rodo côncava e uma lâmina rodo linear. O rodo côncavo é uma lâmina formada para contornar ao redor da área de superfície entre o dedo indicador e o polegar da porção luva. O rodo linear é uma lâmina que vai da luva do dedo mindinho até a abertura [ou boca] da porção luva. A porção luva é construída de material absorvente de água e as bandas de rodo são construídas de borracha. Como característica adicional, cada uma das luvas [i.e., cada um dos dedos da luva] tem um furo para drenagem de água. O furo pode estar localizado na área da luva que cobre a porção unha da mão humana, ou na extremidade oposta, em conexão com o corpo [da luva, não do usuário].

Eu preferia uma porção de fritas agora, mas no momento tenho que usar minha porção de dedos (sem luvas) pra escrever sobre esta e outras porções da patente nº. 6.351.867 [pdf]. Datada de 5 de março de 2002, essa é a patente registrada por George A. Forster, nosso antipático destoalhador. Apesar do nome um tanto desastroso que dá ao seu invento – Rodo Corporal! –, Mr. Forster deve ser um pequeno publicitário de sucesso em Ronkonkoma, que parece nome de um planeta exótico da galáxia, mas é uma cidadezinha no interior de Nova York, mais especificamente do norte de Long Island, a Ilha Longa. Há porções da patente que mais parecem um infomercial do produto:

Conveniência é a força motora de muitos consumidores nesses dias. Qualquer item que economize tempo ou facilite a vida dos sobrecarregados trabalhadores de hoje é uma commodity valiosa. Muitas pessoas usam pelo menos uma e tipicamente duas ou mais toalhas para se enxugar após um banho diário e não é incomum que atletas e trabalhadores braçais ou rurais tomem de dois a três banhos por dia. Isso resulta no acúmulo e lavagem de largas quantias de volumosas toalhas numa base diária, o que é trabalhoso para o dia-a-dia agitado das pessoas ocupadas. A presente invenção permite uma maneira conveniente de secagem do corpo sem o uso de toalhas, diminuindo o tempo de lavagem de roupa e tornando a vida mais fácil. […] Além de diminuir o tempo na lavanderia, este método de secar o corpo seria relaxante e calmante. O rodo corporal também preveniria o atrito da pele pelo esfregar da toalha no corpo. Portanto, poderia eliminar o enrugamento prematuro da pele. […] também pode prevenir mudanças súbitas na temperatura do corpo, reduzindo o potencial de pegar um resfriado.

Mas não se engane! Este não é um publieditorial da rodo-luva. É uma autêntica e legítima porção da série Patentes Patéticas! O que significa que agora nós vamos desmontar os argumentos do marqueteiro-inventor. Primeiramente, considerar uma toalha um estorvo é uma heresia para qualquer mingo que se preze. Portanto, Mr. Forster só pode ser um vogon disfarçado, tentando dificultar as viagens dos mochileiros das galáxias.

rodo-luva

Passar o rodo: você está fazendo isso errado.

Segundamente, boa noite. Não, pera. Segundamente, a luva de Forster deve ser menos eficaz que uma toalha de rosto. Convenhamos, apesar das lâminas de borracha, a parte absorvente — formada por um “material chamado PVA microporoso sintético material [sic]” — é pequena em comparação os dois lados latifundiários de uma boa toalha de banho. Sério, tentem se enxugar com uma toalha pequena e ela logo ficará toda molhada. Parece óbvio, mas Mr. Forster não percebeu que quanto menor uma superfície de absorção, menos água será absorvida.

O tal “PVA microporoso sintético material” nunca será tão macio e fofinho quanto uma toalha felpuda. Mesmo porque o verdadeiro PVA é material e sintético mas não pode ser microporoso. Simplesmente porque também é conhecido como cola branca, que não é muito útil como material absorvente. Incrivelmente, essa baboseira pseudo-química colou no Escritório de Patentes dos Estados Unidos.

Uma taolha toalha muito saturada pode ser torcida e utilizada n vezes. Mas não dá pra torcer e reutilizar uma luva. Portanto, a luva de Forster não seria assim tão econômica (ou ecológica). Em vez de duas ou mais toalhas, os usuários mais extremos precisariam de dezenas de pares de rodo-luvas todos os dias. Mesmo que a eficácia da luva fosse equivalente aos mais sofisticados dispositivos atoalhados, a portabilidade da mesma não é lá grande coisa. Embora pareça mais portátil, a luva-rodo não pode ser dobrada ou enrolada no corpo, muito menos servir como esteira, saída de praia, saia, cachecol ou turbante (as meninas de longas madeixas ainda precisariam recorrer às suas toalhas).

Finalmente, uma luva dessas é inútil nas mãos de qualquer mochileiro das galáxias. Além de brega, ela não serve como esconderijo diante do olhar da Terrível Besta Voraz de Traal.

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