Andrew Crosse

Andrew Crosse (1784-1855): gentleman, poeta e Frankenstein acidental

Ao escrever seu clássico Frankenstein ou o Prometeu Moderno em 1818, Mary Shelley [1797-1851] fez mais do que simplesmente inventar o gênero de ficção científica. Ao criar Victor Frankenstein e seu monstro, ela também estabeleceu um arquétipo do novo gênero: o cientista arrogante que ousa criar vida e desafia os planos de Deus agindo… bem, como um deus. Frankenstein, mais do que sinônimo de monstro, passou a representar (às vezes exageradamente) o cientista insensível, vil ou até mesmo maluco.

Shelley, como todos os escritores de FC que a sucederiam, não criou sua obra do acaso. O clima científico da virada do século XVIII para o XIX também foi muito inspirador: era uma época conturbada, cheia de descobertas incríveis sobre eletricidade e seres vivos. A ideia de eletricidade como “fluido vital” estava no ar – ainda mais depois de Luigi Galvani [1737-1798] e seu clássico experimento com eletricidade aplicada em pernas de sapos mortos. Galvani concluiu que a eletricidade era mesmo o espírito animador da vida. Depois dessa literal galvanização, os cientistas europeus passaram experimentar loucamente com a dupla eletricidade e vida.

No campo das pesquisas elétricas, a liderança estava na Inglaterra. O sucesso de Michael Faraday [1791-1867] — um verdadeiro autodidata — estimulou seus fãs a montar laboratórios improvisados e conduzir suas próprias experiências. Parecia mesmo que qualquer um poderia fazer uma descoberta monumental.

Um dos admiradores de Faraday era Andrew Crosse, cujos experimentos sobre eletricidade criariam não vida nova, mas um dos casos mais bizarros da História da Ciência. Primogênito de uma respeitável família nascido em 1784, Crosse desenvolveu um interesse apaixonado pelas ciências naturais ao chegar à puberdade. Depois de frequentar uma série de lectures sobre eletricidade, ele começou a experimentar por conta própria ao construir uma garrafa de Leyden e replicar as experiências aprendidas nos cursos.

Apesar de sua fascinação por ciência, Crosse acabou seguindo uma carreira acadêmica bastante tradicional e tornou-se um estudante obscuro de Direito em Oxford. Mesmo essa carreira apagada foi bastante curta pois, aos 21 anos, ele perdeu seus pais e teve que voltar Fyne Court, a propriedade da família que herdou e passou a administrar.

Fyne Court

A mansão de Fyne Court foi destruída por um incêndio em 1894. O salão de festas onde Crosse fazia seus experimentos sobreviveu.

Crosse conseguiu manter a amizade e o contato com alguns dos mais importantes cientistas e escritores de seu tempo e, na salão de festas de sua herdade, montou seu próprio laboratório para continuar seus estudos sobre eletricidade e mineralogia. Logo, o jovem cientista amador estava quase inteiramente dedicado ao problema da eletrocristalização.

Por volta de 1807, Crosse começou a produzir carbonatos cristalinos a partir da água retirada de uma caverna nas proximidade de Fyne Court. Ao longo da década seguinte, ele produziu um total de 24 minerais eletrocristalizados. Entre uma eletrocristalização e outra (e entre um filho e outro, pois em 1809 Andrew casou-se com Mary Anne Hamilton e teve sete filhos, dos quais três morreram ainda na infância), Crosse examinava a atmosfera por meio da eletricidade. Usando postes e árvores, ele suspendeu um cabo de mais de dois quilômetros por sua propriedade. Com esse cabo suspenso, ele pôde determinar a polaridade da atmosfera sob diferentes condições climáticas. Suas descobertas foram divulgadas pelo amigo e colaborador George John Singer [1786-1817] no livro Elements of Eletricity and Electro-Chemistry (1814).

Depois de arranjar um tempinho pra ver Napoleão derrotado de passagem por Plymouth, Crosse voltou suas energias (sem trocadilho) para o desenvolvimento de pilhas voltaicas. Pilhas voltaicas de grande escala foram construídas em Fyne Court. Em Manual of Eletricity (1859), o químico e físico Henry Minchin Noad [1815-1877] descreve uma bateria de Crosse formada por 50 jarros contendo 73 pés quadrados (6,8m2) de superfície condutora. Segundo o relato de vizinhos, Crosse conseguia até 20 descargas elétricas por minuto, com ruídos tão fortes quanto o de um canhão. Não é à toa que ele ficou conhecido na região como o “homem dos raios e trovões”. Seu trabalho com grandes baterias chamou a atenção de Sir Humphry Davy [1778-1829], que visitou Fyne Court em 1827.

Entre outros experimentos, Crosse tentou extrair cobre do respectivo minério por meio de eletrólise; buscou purificar a água do mar, vinho e brandy (também por eletrólise) e examinou os efeitos da eletricidade nos vegetais. Mas foi um empoeirado experimento com cristais de aragonita que fez Crosse parecer a encarnação perfeita do Dr. Frankenstein.

Referências

SINGER, George John. Elements of Eletricity and Electro-Chemistry. Londres: Longman, Rees, Orme & Brown, 1814. [Nesta obra os relatos sobre os experimentos atmosféricos de Crosse começam na p. 270; sobre baterias, vide p. 469. Disponível via Internet Archive]

NOAD, Henry Minchin. A Manual of Eletricity including Galvanism, Magnetism, Diamagnetism, Electro-Dynamics, Magneto-Eletricity and the Electric Telegraph. Londres: Lockwood & Co., 1859. 4ª. ed. [Sobre Crosse e seus experimentos, vide pp. 173, 174, 177, 256, 378, 381, 383, 390, 401. Disponível via Google Books]

(continua…)

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