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Em seu diário de viagem, Darwin relata uma experiência sísmica enquanto estava no Chile:

20 de Fevereiro — Dia memorável nos anais de Valdívia, pelo mais severo terremoto experimentado pelos seus habitantes mais antigos. Aconteceu de eu estar na praia, deitado no mato para descansar. Veio subitamente e durou dois minutos, mas o tempo pareceu muito maior. O tremor do solo era muito sensível. As ondulações apareceram ao meu companheiro e a mim como vindas do leste, embora outras proviessem do sudoeste. O que demonstra o quão difícil é perceber a direção dessas vibrações nesses casos. Não tive dificuldade de me levantar, mas o movimento me deixou quase zonzo. Era como um movimento de um barco num mar meio ondulado, ou mais ou menos como o sentido por uma pessoa esquiando sobre gelo fino, que parte-se sob o peso de seu corpo.

[…] As pessoas saíram correndo pelas portas com grande alarme. […] As ondas foram mui curiosamente afetadas. O grande choque teve lugar durante a maré baixa e uma velha que estava na praia me disse que a água fluia muito veloz, mas não em grandes ondas, até a marca da maré alta e depois retornava ao seu nível natural; isso também era evidente pela linha de areia úmida. […] No curso da noite, ocorreram outros choques mais leves, todos os quais pareceram produzir no porto as mais complicadas correntes, algumas de grande intensidade.

Na entrada do dia 22, Darwin descreve os efeitos que observou nas cidades que visitou após o tremor: Talcuhuano, Concepcion e Quiriquina, onde o prefeito lhe contou que “ele mesmo recebeu a notícia do tremor ao se dar conta de que tanto ele quanto o cavalo em que trotava estavam rolando juntos pelo chão. Ao se levantar, ele foi novamente derrubado. Também me contou que algumas vacas, que estavam nos lados íngremes da ilha, rolaram para o mar.” Após relatar como o Cônsul inglês se salvou dos escombros, o naturalista britânico imagina os efeitos transpostos para sua pátria:

Terremotos em si são o bastante para destruir a prosperidade de qualquer país. Se, por exemplo, sob a Inglaterra, as forças subterrâneas ora inertes exercessem aquele poder que certamente exerceram em antigas eras geológicas, quão completamente seria diversa a condição do país! O que seria das casas elegantes, das cidades cheias, das grandes manufaturas, dos belos edifícios públicos e privados? Se o novo período de perturbação começasse por algum grande terremoto na calada da noite, que terrível seria a carnificina! A Inglaterra estaria imediatamente quebrada! Todos os papéis, registros e contas seriam perdidos naquele momento. O governo, sendo incapaz de coletar impostos e falhando em manter sua autoridade, veria o descontrole da mão da violência e da rapina. Em cada grande cidade, a fome seria proclamada e a pestilência e a morte seguiriam seus rastros.

Apesar do choque, Darwin ainda nota uma reação curiosa do humilde povo chileno:

As classes baixas em Talcahuano pensavam que os terremotos eram causados por alguma índia velha, que há anos havia sido ofendida e entupira o vulcão de Antuco. Essa crença boba é curiosa, porque mostra que a experiência os ensinou a observar a constante relação entre a atividade vulcânica suprimida e os tremores de terra. Foi necessário aplicar a bruxaria ao ponto onde seus conhecimentos se detinham e isso era o fechamento da fenda vulcânica.

Referência

DARWIN, Charles. Journal of Researches Into the Geology and Natural History of the various countries visited by H. M. S. Beagle under the Command of Captain Fitzroy, R. N. from 1832 to 1836. London: Henry Colburn, 1839. p. 368 e ss. [Esta é a primeira edição do diário de viagem de Darwin, republicado várias vezes e com vários títulos ao longo do séc. XIX. Atualmente a obra é conhecida como A Viagem do Beagle]
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