Na longa carreira até os analgésicos baratos dos dias de hoje, os médicos toparam com a cocaína. Embora as folhas de coca (Erythroxylum coca) fossem há muito reconhecidas por suas propriedades medicinais, foi só a partir de meados do século XIX que passou a ser usada como matéria-prima para uma nova droga: um alcalóide em pó cujo processo de isolamento e purificação foi descrito em 1860 por Albert Niemann (1834-1861) em sua tese de doutorado¹. Foi Niemann quem batizou de cocaína o alcalóide incolor recém-descoberto. Quase imediatamente, a droga foi adotada por ser uma alternativa segura aos opiácios viciantes, como a morfina.

Só que não era bem assim.

Antes que isso fosse confirmado, médicos, dentistas e neurologistas da Europa e da América do Norte fizeram entusiásticos experimentos com a nova medicação. Os doutores aplicavam a cocaína não só em seus pacientes — muitas vezes experimentavam por si mesmos. Parecia a cura perfeita para os morfinônamos, além de ser um anestésico relativamente seguro, inclusive para extrações dentárias e pequenas intervenções cirúrgicas.

Esses médicos experimentalistas in extremis não eram diplomados de fundo de quintal. As maiores autoridades médicas da época experimentaram o pó e passaram a recomendá-lo para vários tratamentos. Sigmund Freud (1856-1939), por exemplo, foi um dos primeiros defensores da cocaína, e — ironicamente — a prescrevia justamente para tratamento de outras drogadições.

Claro que os efeitos “colaterais” não tardaram a aparecer. Os primeiros casos de intoxicação por cocaína — inclusive com surtos psicóticos — surgiram por volta de 1885, mas não foram levados muito a sério pela comunidade médica. Ninguém acreditava que a cocaína pudesse ser tão viciante quanto a morfina. De certo modo estavam certos, só que ao contrário: a coca acabaria sendo ainda mais viciante. Indiferentemente, os experimentos continuaram e o uso começou a se generalizar, especialmente entre os médicos e outros profissionais da saúde.

Com uma classe médica literalmente viciada, a oposição à cocaína veio da imprensa, especializada ou não. Em 1886, o New York Medical Journal afirmou em editorial que “nenhuma técnica médica com uma história tão curta criou tantas vítimas quanto a cocaína”. Não que todos os médicos estivessem viciados, é claro. O médico e psiquiatra alemão Friedrich Albrecth Erlenmeyer (1849-1926)² fez uma profunda (e objetiva) descrição dos sintomas de intoxicação por cocaína. Numa monografia intitulada Cocaína no Tratamento da Adicção Opiácia (1887), Erlenmeyer considerou a nova droga como a “terceira escória da humanidade”, atrás apenas do álcool e da morfina.

A cocaína podia ser uma “escória”, mas pelo menos era um vício refinado no séc. XIX.

É difícil saber ao certo como a epidemia de cocaína se espalhou e quantos foram os afetados. Era comum consumi-la com álcool (principalmente com vinho, na forma de coca-wine), o que complicava ainda mais as tentativas de qualquer estudo estatístico sério do consumo e dos efeitos da droga. Mesmo assim, por volta de 1890, mais de 400 casos de intoxicação por cocaína haviam sido descritos na literatura médica. Foi só então que a ficha dos médicos caiu: em vez da cura, eles haviam criado um novo vício. Como muitos colegas, a essa altura Freud mudou de opinião e arrependeu-se publicamente de suas prescrições de cocaína. Não adiantou muito, já que muitos de seus pacientes acabaram viciados.

Apesar destes primeiros alertas nem o público nem a indústria farmacêutica levaram a ameaça a sério. Não tardaram a surgir muitos produtos comerciais que continham cocaína ou folhas de coca em sua composição. A Coca-Cola é o exemplo mais famoso, mas era comum entrar em farmácias da belle-époque e pedir cocaína como se fosse um cafezinho. Aliás, a percepção popular da coca era a mesma do café: um estimulante barato, seguro e de rápido preparo.

Ou algo tão barato quanto doce de criança: dropes de cocaína para “cura instantânea” da dor de dente (1885)

O que a princípio era uma droga de alta classe não tardou a se espalhar. Em parte, por culpa da própria classe alta. Empresários, que usavam-na para suportar suas longas horas de trabalho passaram a distribui-la a seus empregados pelo mesmo motivo: aguentar jornadas de trabalho ainda mais longas, que não raro passavam de 10 horas por dia. Isso foi especialmente comum no sul dos Estados Unidos, onde a coca era dada aos empregados negros ainda vistos como sub-humanos.

Com o uso indiscriminado, não tardariam a aparecer ligações entre crimes e cocaína. Mas e os médicos?

(continua)

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¹ Niemann foi orientado por ninguém menos de Friedrich Whöler (1800-1882), o pai da Química Orgânica. Ao contrário do que pode parecer, o descobridor da cocaína não morreu de overdose. Niemann foi vítima de outra substância química que descobriu: o gás mostarda, que seria usado como arma química durante a I Guerra Mundial (1914-18).

A referência da tese de doutorado de Niemann sobre a cocaína é a seguinte:

Niemann, A. (1860), “Ueber eine neue organische Base in den Cocablättern”. Arch. Pharm. Pharm. Med. Chem., 153: 129–155. doi: 10.1002/ardp.18601530202

² Não confundir este Friedrich Erlenmeyer com Friedrich Gustav Carl Emil Erlenmeyer (1864-1921), químico e filho do também químico Richard August Emil Erlenmeyer (1825-1909), criador do famoso frasco de Erlenmeyer. Não há parentesco entre os Erlenmeyer da medicina e os da química.

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