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“Uma pirueta, duas piruetas… Bravo, bravo!”, dizia a música circense dos Trapalhões. Acrobatas humanos fazendo “superpiruetas, ultrapiruetas” é relativamente fácil. Difícil mesmo é um animal de circo voando em “arquicambalhotas, hipercambalhotas”. Edward Wulff achava que isso não só seria possível como desejável. Bastaria apenas um aparato para Lançamento de animais para saltos mortais:

O objetivo de minha presente invenção é apresentar um aparelho aperfeiçoado do qual animais vivos — como cavalos, elefantes, macacos, &c — sejam prontamente lançados ao espaço com o propósito de levar o mesmo a dar o chamado salto mortale. Outro objetivo de minha invenção é construir o aparelho lançador de modo que sua força projetora não atue sobre as pernas dos animais, a dita força projetora sendo aplicada ao corpo propriamente dito do animal a ser lançado.

Um dono de circo que se preze nunca revela o segredo de sua trupe. Mas o bruxuleante bruxeleta bruxelense Edward Wulff não era um dono de circo comum. Como se vê, era um dono de circo belga com a amalucada ambiciosa ideia de sair lançando elefantes pelo mundo.

Evidentemente, tal ideia poderia ser roubada ou o aparelho poderia ser copiado discretamente por um espião anão vestido de palhaço. O melhor a fazer seria patentear o equipamento lança-animais. Portanto: “Senhoras e senhores, esta ideia biruta deu uma superpirueta, atravessou o Atlântico e foi cair no Escritório de Patentes dos Estados Unidos!” “Bravo! Bravo!”, exclamaram os funcionários do USPTO, que a patentearam sob número 774.017 [pdf] em 1º de novembro de 1904.

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Mas como se nota pela Fig. 2 da patente, não há muito o que esconder. O invento de Mr. Wulff é pouco mais que uma catapulta: um par de tábuas, dois feixes de mola (6) e quatro grandes dobradiças tubulares (2), além de uma alavanca (5). Uma das tábuas (3) serve de plataforma de lançamento, na qual, por exemplo, se fixa um cavalo nos suportes (7). Vide Fig. 3:

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Rufem os tambores! O modo de funcionamento é explicado em detalhes pelo próprio Mr. Wulff:

Com a plataforma de lançamento 3 sendo comprimida e assegurada sobre a base através da ação da alavanca 5, o animal — i.e., um cavalo com um colete adequadamente ajustado — é posto entre os suportes 7 e os anéis 9 do dito colete são ligados aos ganchos 8, de modo que o colete esteja bem apertado no cavalo, sendo o mesmo praticamente pendurado nos suportes, mas com seus pés ainda em contato com a base 1; de outro modo o animal resistiria com suas patas, o que seria indesejável. Com a liberação da plataforma de lançamento 3, através da atuação da alavanca manual 5, os feixes de mola 6 irão empurrar a dita plataforma, bem como o animal sobre a mesma, para cima. E por virtude da vis viva e da rotação parcial da plataforma de lançamento, o animal será induzido a rodar no espaço e performar o assim chamado salto mortale, tendo os ganchos 8 rapidamente soltos dos anéis de retenção do colete.

OK, a plataforma vai pra cima, se solta do cavalo e… onde ele cai? Numa rede? No meio do picadeiro? Em cima de uma cama elástica sustentada por palhaços? Sobre o público? Se isso não parece tão ruim, aumente a escala e tente lançar um elefante desse jeito. Antes de começar ele provavelmente esmagaria a tábua de madeira da plataforma de lançamento. Ainda que chegasse a ser lançado, não iria muito longe e acabaria caindo de pé ou no máximo tombaria de bumbum. Seria um feito e tanto, mas bem longe das prometidas “polipiruetas, maxipiruetas” paquidérmicas. E o público, enganado, acabaria saindo do espetáculo bem “bravo”.

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