Em 1561 foi impresso um livro intitulado Anatomie de la Messe [Anatomia da Missa]. É um octavo pequeno, de 172 páginas, acompanhado por uma Errata de 15 páginas! O editor, um  monge muito devoto, nos informa que uma razão muito séria o levou a esse expediente: antecipar-se aos artifícios de Satã. Segundo o autor o demônio, para arruinar o fruto de sua obra, empregou duas fraudes bastante maliciosas: a primeira, antes da impressão, foi lançar o manuscrito numa sarjeta, reduzindo-o a um estado deveras deplorável, tornando largos trechos ilegíveis; a segunda, fazendo os impressores cometer numerosos equívocos em obra tão curta. Para combater essa dupla maquinação satânica, ele foi obrigado a reexaminar minuciosamente o seu trabalho para fazer essa singular lista de erros cometidos pelos impressores sob influência do Diabo. Tudo isso é explicado numa Advertência à Errata. — D’ISRAELI, Isaac. Curiosities of Literature [Curiosidades da Literatura], Vol. I. Paris: Baudry’s European Library, 1835. p. 64

D’Israeli não nos informa a autoria ou o local de impressão da tal Anatomia da Missa. Há vários livros com o mesmo título, sendo o mais antigo um Annatomia de la Messa, de autoria de Antonio di Adamo (ou Agostino Mainardo) e publicado em 1552. O homônimo mais notável é Anatomie de la Messe, de Pierre du Moulin (1568-1658), publicado em Leiden em 1638.

Segundo o Manuel du libraire et de l’amateur de livres, vol. 6 [Manual do bibliotecário e do bibilófilo], há mesmo um in-8vo. intitulado Missae ac missalis anatomia, obra anônima publicada em Genebra em 1561. Mas não está claro se essa é uma tradução do livro de 1552. O Manuel du libraire… classifica todos esses títulos como “escritos satíricos dos protestantes contra a Igreja romana, suas cerimônias e particularmente contra o sacrifício da missa” [1]. É provável, portanto, que esse livrinho obscuro esteja intencionalmente cheio de errata, como forma de satirizar a credulidade católica.

Referência

[1] BRUNET, Jacques-Charles. Manuel du libraire et de l'amateur de livres. Tome Sixième. Paris: Firmin Didot Frères, Fils et. Cie., 1865. p. 91.
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