dejavu

Aquela sensação algo familiar de passar por uma experiência já conhecida mesmo que ela seja inédita. Isso mesmo, déjà vu. Aquilo que foi visto. Normalmente é uma sensação bastante repentina e passageira. Como um flash de futuro pretérito no presente. Se você já passou por isso, imagine prolongar seu déjà vu mais intenso. Por anos a fio, tudo o que acontece lhe parece familiar demais.

Pode parecer uma história de ficção científica psicológica, mas a Dra. Christine Wells não escreve ficção. Em artigo publicado na edição de 8 de dezembro de 2014 do Journal of Medical Case Reports, Wells e seus colaboradores descrevem um desnorteante caso de déjà vu crônico de um universitário britânico de 23 anos.

O jovem, segundo o paper, relata ter começado a experimentar essa sensação em 2007, pouco depois de iniciar sua graduação. Inicialmente, seus déjá vu duravam no máximo alguns minutos, mas os repetitivos episódios foram piorando — ainda mais quando o estudante passou a sofrer de ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo (com medo de germes, lavava as mãos compulsivamente). As sensações de já-vi-esse-filme, que inicialmente duravam poucos minutos por dia, tornaram-se praticamente contínuas após uma experiência com ácido lisérgico (LSD).

Ele tentou melhorar interrompendo os estudos e tirando umas férias, mas continuava com a sensação de estar preso em um “loop temporal”. Após consultar seu médico, ele foi encaminhado para uma equipe de neurologistas em 2008. Uma bateria de exames não revelou nenhuma causa para os episódios de déjà vu. Foi dado um diagnóstico de despersonalização mas mesmo depois de passar por diferentes medicações, seus sintomas não melhoraram.

Em meados de 2010, em meio a um novo ciclo de exames, o estudante disse que seu déjà vu crônico o levou a parar de ver TV, ler jornais ou ouvir rádio — tudo lhe parecia uma eterna reprise. Casos extremos de déjà vu são típicos de lesões cerebrais — especialmente do lobo temporal — mas uma tomografia cerebral não revelou nenhuma alteração no cérebro do estudante britânico. Testes neuropsicológicos também não indicaram nenhum problema de memória.

Déjá vu crônico não é algo incomum: pode acontecer em casos de demência e epilepsia, mas nesses casos, o portador não tem consciência de que essas alucinações da memória são falsas. O jovem britânico, por outro lado, tem plena ciência de que está preso num ciclo de pseudomemórias. O universitário relata uma intensa ansiedade mas é difícil saber se ela é causa ou consequência de tanto déjà vu. Segundo a Dra. Wells:

Muitos casos como esse ocorrem como efeito colateral de crises epilépticas ou demência. Entretanto, nesse caso, parece que os episódios de déjà vu poderiam estar ligados à ansiedade, que causaria uma ativação assíncrona dos neurônios, o que causaria mais déjà vu e consequentemente mais ansiedade. Se comprovado, esse poderia ser o primeiro caso registrado de déjà vu psicogênico, isto é, causado pela ansiedade e não por outra condição neurológica como demência ou epilepsia. Em relação ao nosso caso, o estresse causado pela experiência de déjà vu pode por si levar a maiores níveis de déjà vu: retroalimentações positivas similares são descritas em outros estados de ansiedade, como ataques de pânico. Em termos neurobiológicos, é plausível que a ansiedade possa levar à geração de déjà vu .

Ainda que esse caso seja excepcionalmente único (e bastante complicado), ele levanta novas questões e pode levar a um melhor entendimento sobre as causas daquela sensação algo familiar de passar por uma experiência já conhecida mesmo que ela seja inédita. Isso mesmo, déjà vu.

Referência
rb2_large_gray25Wells et al.: Persistent psychogenic déjà vu: a case report [Déjà vu psicogênico persistente: relato de um caso]. Journal of Medical Case Reports 2014 8:414. doi:10.1186/1752-1947-8-414

[via Providentia]

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