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Mr. Somerton

Há quase 70 anos, um homem apareceu morto na praia de Somerton, em Adelaide, Austrália. Na primeira parte sobre a história e a investigação deste caso que ainda não foi esclarecido, vimos as circunstâncias da cena ocorrida na manhã de 1º. de Dezembro de 1948. Na segunda parte, estudamos dois códigos: o encontrado num livro e o DNA. As letras rabiscadas no livro ainda não foram decifradas. As evidências genéticas apontam para uma possível origem americana. Neste último capítulo, vamos ver as evidências químicas — que excluem a possibilidade de envenenamento e revelam que Mr. Somerton chegara a Austrália poucos dias antes de falecer. Novos exames de evidências colhidas na época, como fotografias post-mortem e registros dentários também jogam novas luzes sobre o caso.

With lasers

Além do material genético, as amostras capilares de Mr. Somerton guardam outros indícios importantes, como a presença de diferentes isótopos, que podem revelar alguns hábitos do homem desconhecido. Usando uma técnica chamada ablação a laser, o Dr. James Chappell, da Universidade de Adelaide analisou uma amostra de cabelo com 1cm de comprimento. A ablação a laser é um tipo de espectrometria na qual a amostra é queimada por um laser para liberar os isótopos nela presentes.

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Os resultado preliminares da análise espectrográfica do fiozinho de cabelo de Mr. Somerton (imagem acima; linhas azuis são os dados do Homem de Somerton e as linhas vermelhas são os índices normais de indivíduos de hoje em dia) revelaram níveis acima do normal de chumbo, estrôncio-88 e arsênico. Entretanto, a presença de arsênico e do chumbo não significa necessariamente um caso de envenenamento.

Na década de 1940, os níveis de arsênico (que podia aparecer em traços em alguns alimentos enlatados) e chumbo (comum em encanamentos antigos) eram mesmo maiores do que hoje em sociedades industrializadas. O nível de chumbo de Mr. Somerton (gráfico central) estava crescendo quando atingiu um pico um mês antes de sua morte, voltando a se acumular mais lentamente em seguida. O nível de arsênico (gráfico à esquerda), na verdade, passou a declinar. Assim, é improvável que ele tenha sido morto por arsênico. Uma dose única de chumbo também não se confirma. O que continua intrigante é a concentração de estrôncio-88 (gráfico à direita).

O professor Chapell explica que os níveis de estrôncio-88 sofreram uma variação súbita (para baixo) uns 10 dias antes da morte de Mr. Somerton. Isso, segundo o professor, indicaria que houve uma mudança no ambiente. Pode ter sido quando ele viajou para a Austrália, passando a beber uma água diferente e consumir vegetais de uma região diferente. “Isso nos dá uma janela temporal quanto aos seus movimentos. Uma hipótese é que ele veio de Sydney e procurou Jestyn em Melboune antes de chegar a Adelaide.” A evidência do estrôncio indica que ele passou mais ou menos uma semana em Melboune.

Orelhão

somertonman-ear.jpgTal como o DNA, essa nova evidência química ainda não é conclusiva. Outros esforços de identificação do Homem de Somerton estão se voltando para o reexame das provas obtidas na época — as que ainda restam pois muitas, como a mala marrom, foram se perdendo ao longo dos anos. As fotos e os dados odontológicos, porém, ainda existem.

Para Derek Abbott, professor de engenharia eletrônica da Universidade de Adelaide que investiga o caso há seis anos, as fotos da autópsia têm pouca semelhança com o indivíduo vivo. A pele e os músculos, especialmente os faciais, deformam-se e endurecem após a morte, mudando drasticamente a aparência da pessoa. No caso das fotos póstumas de Mr. Somerton, fica claro que ele passou por uma autópsia — é possível ver onde seu crânio foi aberto e em seguida costurado. Entretanto algumas características — como as orelhas — podem servir como referências úteis.

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Orelhas de Mr. Somerton (esq.) e seu suposto filho, Robin (dir.)

De fato, Mr. Somerton tinha umas orelhas notáveis: a cavidade superior (chamada cymba no latim anatômico) era muito maior que a inferior (cavum). Tal característica ocorre em cerca de 1% da população. Pode não ser coincidência que seu suposto filho, Robin, também tivesse uma cymba grande.

Outra característica reveladora é que Mr. Somerton apresentava uma prega em seu lóbulo auricular, tecnicamente chamada de prega diagonal do lóbulo auricular (ou diagonal earlobe crease, DELC). Curiosamente, há pesquisas que demonstram que portadores de DELC têm risco maior de sofrer um ataque cardíaco isquêmico. Embora a autópsia tenha revelado um coração saudável, é possível que, se tivesse vivido mais tempo, Mr. Somerton poderia ter desenvolvido problemas coronários. Esse pedaço de evidência poderia confirmar algum possível parentesco ainda desconhecido.

Sorriso enigmático

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O sorriso de Robin. Note os caninos, característica possivelmente herdada de Mr. Somerton.

Do ponto de vista odontológico, o Homem de Somerton também tinha uma condição relativamente incomum: faltavam-lhe ambos os incisivos laterais, de modo que seus dentes caninos superiores ficam justapostos aos dentes frontais. No inquérito conduzido em 1948, foi determinado que nenhum espaço entre seus dentes seria notável quando o homem estivesse falando. Evidências fotográficas também indicam que seu suposto filho, Robin, também teria essa confuguração dentária incomum.

gravataUma última evidência também estaria resgistrada nas fotos póstumas do Homem de Somerton: as listras de sua gravata (ao lado). No acessório encontrado com o cadáver, as listras formam um gradiente negativo, comum nas gravatas norte-americanas (gravatas britânicas e australianas tendem a ter um gradiente positivo conhecido como heart to sword). Outros objetos encontrados com o desconhecido na praia de Somerton — goma de mascar e um pente de alumínio — também indicam uma procedência estadunidense.

Apesar dos esforços de Abbott e outros investigadores para esclarecer as circunstâncias da vida de da morte do Homem de Somerton, é possível que nós nunca cheguemos a conhecer sua identidade e sua história. O mistério está longe de terminar…


Informações adicionais sobre o Homem de Somerton

  • Jestyn, mãe do suposto filho do Homem de Somerton e que pediu para manter o anonimato na época, faleceu em 2002. Identificada apenas por esse codinome (que aliás aparece anotado no livro), o contato dos investigadores policiais com Jestyn se perdeu ao longo dos anos. Mesmo que ela não tivesse tido relações íntimas com Mr. Somerton parece quase certo que ela soubesse quem ele era, mas ela sempre se recusou a tocar no assunto.
  • O prof. Abbott mantém uma página de discussão no Reddit sobre o caso;
  • Há uma campanha de crowdfunding para financiar testes de DNA mais sofisticados e para pagar as pesquisas já realizadas de processamento genético e de isótopos. Em todos esse anos, Abbott está mantendo a pesquisa em pé sem nenhum apoio externo. Infelizmente, o valor arrecadado está bem longe da meta;
  • Existe uma petição on-line pela exumação do corpo do Homem de Somerton, o que poderia facilitar muito as pesquisas pela sua identificação (já tem metade das assinaturas necessárias);

Leituras recomendadas

BALINT, Ruth. The Somerton Man: an unsolved history. Cultural Studies Review, Vol. 16, no. 2, pp. 159–78, 2010.
FELTUS, Gerry. The Unknown Man: a suspicious death at Somerton Beach.
GREENWOOD, Kerry. Taman Shud: The Somerton Man Mystery. University of New South Wales Publishing, 2013


Esta trilogia conta com informações publicadas pelo Phys.org [1, 2].

A Wikipédia — tanto em inglês quanto em português — tem maiores detalhes e muitas referências sobre o caso.

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