botânica paralela

Jorge Luis Borges tem o seu Livro dos Seres Imaginários ou Manual de Zoologia Fantástica, um bestiário de criaturas reconhecidamente inexistentes, uma zoologia sem animais. Não menos borgiano é a Botânica Paralela do escritor e ilustrador ítalo-holandês Leo Lionni [1910-1999]. Digno da Biblioteca de Babel, a Botânica Paralela é um catálogo de plantas inventadas, cujas características inventadas são descritas por botânicos igualmente inventados.

S. barbulata

S. barbulata

Uma das espécies ficcionais é a Sigurya barbulata, notável por ser coroada pelo que se descreve como “cefalocarpos” ou frutos-cabeça. Em bom português, ela poderia ter o curioso nome popular de pé-de-cabeça. Um espécime de S. barbulata teria sido encontrado metalizado em uma pirâmide mexicana. Diante disso, o que os autores discutem furiosamente não é a absurda planta metalizada, mas o que teria causado tal fenômeno.

labirintiana

L. labirintiana

Entre outras espécies descritas, temos a Labirintiana labirintiana, cujas folhas apresentam nervuras… labirínticas. Uma planta parecida com rochas vulcânicas, Tirillus mimeticus, é atribuída ao Brasil. Também brasileira seria a T. parasiticus, vegetal tubular que cresceria em troncos caídos.

T. mimeticus

T. mimeticus: não confundir com as pedras à sua volta. E não, não são batatas.

“As dificuldades de aplicar os métodos tradicionais de pesquisa ao estudo da botânica paralela emergem principalmente da imaterialidade das plantas”, explica Lionni. “Desprovidas como são de quaisquer órgãos ou tecidos, seu caráter seria completamente indefinível não fosse pelo fato de que a botânica paralela ainda é, de certo modo, botânica. Assim, o que apresentam é um reflexo, mesmo que distante, de muitas das mais evidentes características das plantas normais”.

T. parasiticus

T. parasiticus, mas pode chamar de pau-de-pau.

Ex-publicitário transformado em autor de livros infantis, Lionni escreveu esse compêndio de plantas ficcionais em 1976 como puro experimento. No total são 19 espécies imaginárias, acompanhadas de 32 ilustrações e textos de dezenas de autores. Na obra, Lionni admite apenas a autoria das ilustrações (numa das imagens, ele aparece como diretor de um laboratório). Talvez o único defeito desse pseudo-compêndio é que as ilustrações são apenas em preto-e-branco. Há uma versão online da Botânica Paralela, em inglês.

Mas pra quê fazer tudo isso? Pelo mesmo motivo que romancistas escrevem sobre relacionamentos ficcionais ou acontecimentos históricos inexistentes. Lionni não perde tempo discutindo esse tipo de coisa e encerra a obra com a citação do (também inventado) filósofo sueco Erud Kronengaard: “Existem dois tipos de homens: os que são capazes de maravilhar-se e os que não são. Eu peço a Deus que sejam os primeiros aqueles que forjarão nosso destino.”

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