DespicableMe2

Saruman e seu exército de orcs. Scar e suas fileiras de hienas. Gru e sua legião de minions. Ou, segundo uma das teorias conspiratórias, um CEO da indústria farmacêutica e todos os seus subordinados. Seja qual for o seu malvado favorito, um vilão só não faz uma conspiração. Mas quantos cúmplices são necessários para fazê-la funcionar em segredo?

Seja qual for o seu plano de dominação mundial, é melhor não envolver muita gente. Não é um conselho desinteressado e sim a conclusão de um estudo recém-publicado na PLoS ONE pelo Dr. David Robert Grimes.

Físico dedicado à pesquisa do câncer na Universidade de Oxford, o Dr. Grimes também é escritor e divulgador científico — e, por isso, recebe muitas mensagens de pessoas que acreditam em conspirações de cientistas, pesquisadores ou empresários.

“Inúmeras teorias da conspiração envolvem a ciência”, explica o físico em comunicado divulgado pelo EurekAlert. “Embora a crença de que o pouso na Lua tenha sido falso possa não ser nociva, acreditar na desinformação sobre vacinas pode ser fatal. Entretanto nem toda crença conspiratória é necessariamente equivocada. As revelações de Snowden, por exemplo, confirmaram algumas teorias sobre as atividades da NSA.”

Como divulgador científico, Grimes sabe que é fácil desconsiderar as teorias mas ele queria saber como elas seriam possíveis. “Para esse fim, observei um requisito fundamental para uma conspiração viável: o sigilo”.

O pesquisador criou uma equação capaz de apresentar a probabilidade de uma conspiração ser desmascarada intencionalmente por um dedo-duro ou sem querer por um conspirador descuidado. Foram considerados fatores como o número de conspiradores, o tempo de operação da conspiração e os efeitos da morte de conspiradores, seja por velhice ou por queima de arquivo. Para determinar as chances de um Snowden qualquer revelar o que não devia, Grimes levou em conta três conspirações genuínas, entre as quais o Projeto Prism da NSA.

Como líderes conspiradores não dão mole com X-9 (e consequentemente pode levar tempo pra alguém caguetar), Grimes sobrestimou a quantidade de conspiradores e o tempo que a conspiração levaria para ser desmascarada. Com a equação pronta, e estimando o máximo possível de envolvidos em cada caso, o cientista britânico calculou quão viáveis seriam quatro teorias de conspiração bastante comuns:

1) A NASA teria feito uma encenação dos astronautas na Lua, o que, direta ou indiretamente, teria envolvido 411 mil pessoas;

2) A teoria de que há uma conspiração de cientistas ideologicamente motivados por trás das mudanças climáticas (405 mil pessoas);

3) As vacinas inseguras estariam sendo encobertas pelas autoridades ou mesmo deliberadamente fabricadas (22 mil pessoas assumindo apenas o acobertamento por autoridades como Organização Mundial da Saúde e o Centro de Controle de Doenças dos EUA; 736 mil participantes caso todas as companhias farmacêuticas estejam envolvidas);

4) Outro caso envolvendo farmacêuticas: a cura do câncer estaria sendo suprimida ou ocultada pela indústria (714 mil conspiradores).

Não é muito difícil perceber que, nesses casos, dado o grande número de envolvimentos, o plano maligno dos vilões não iria durar muito. Os cálculos do Dr. Grimes confiram exatamente isso e dão uma data de validade estimada para cada caso.

Acabariam sendo expostas as conspirações do cenário (1) em 3 anos e 8 meses; o caso (2) seria revelado em 3 anos e 9 meses; a conjuração (3) cairia em 3 anos e 2 meses e os planos de (4) seriam descobertos em 3 anos e 3 meses. Se essas conspirações todas fossem verdade, já teriam sido desbancadas há muito tempo.

Mas então qual seria o máximo de gente capaz de fazer um intriga e mantê-la em segredo? Depende de quanto tempo o segredo tem que ser mantido. Para durar 5 anos um golpe deve envolver um máximo de 2521 pessoas. Um esquema com uma década ou mais precisaria de 1000 colaboradores. Manter uma operação secreta secular exigiria não mais que 125 malvados. O acobertamento de um evento único como um acidente, onde todo mundo teria que apenas manter o bico fechado não pode ter mais de 650 testemunhas.

Grimes não quer convencer ninguém mas continua preocupado. Ele afirma que há amplas evidências de que a crença em conspirações é mais ideológica que racional, o que dificulta o combate destas narrativas. “Se vamos enfrentar a multidão de dificuldades que nos ameaçam como espécie, das mudanças climáticas à geopolítica, então precisamos abraçar a realidade em vez das ficções ideologicamente motivadas”, conclui. Para ter sucesso no mundo real Saruman, Scar e Gru precisariam reduzir drasticamente suas folhas de pagamento. A NASA, a OMS e as indústrias farmacêuticas também.

Referência

rb2_large_gray25Grimes DR (2016) On the Viability of Conspiratorial Beliefs [Da viabilidade das crenças conspiracionais]. PLoS ONE 11(1): e0147905. doi:10.1371/journal.pone.0147905
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