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A criatura de aparência asquerosa insere seus ovos num hospedeiro e vai embora. Em pouco tempo, os ovos eclodem e as larvas recém-nascidas se alimentam do hospedeiro de dentro pra fora. Quando crescem mais um pouco, as larvas ainda se encontram dentro de um bicho — e também acabam por consumi-lo. Por mais alienígena que pareça, essa estratégia de reprodução é relativamente comum. E bastante eficiente em termos energéticos, segundo uma pesquisa recente. Tanto que o pobre hospedeiro pode abrigar uma pequena cadeia alimentar.

Insetos parasitoides, como os pulgões da espécie Aphidius megourae, botam seus ovos dentro de outros insetos (inclusive outros pulgões). Segundo estudos anteriores, entre 15% e 50% da massa do hospedeiro seriam convertidos em biomassa do parasitoide. Seria possível que um hospedeiro fosse inteiramente consumido? Do ponto de vista do parasitoide, não haveria nada mais eficiente?

Para descobrir isso, Dirk Sanders e Frank van Veen, do Centro de Ecologia da Universidade de Exeter (Inglaterra), juntaram num mesmo ambiente parasitoides — como a Dendrocerus carpenteri — com outros parasitoides. Um afídioMegoura viciae, era a vítima hospedeira e o Aphidius megourae, outro afídeo, era o parasita primário.

Os pesquisadores de Exeter observaram que há mais de uma espécie de parasitoides que pode infectar o M. viciae, atacando os parasitoides primários. Estes superparasitoides, como o Alloxysta sp., por sua vez, podem sucumbir à voracidade de um hiperparasitoide — Coruna clavata, por exemplo. Segundo a pesquisa publicada na Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, um pobre hospedeiro pode abrigar pequenas cadeias alimentares de parasitoides com até três ou quatro níveis tróficos.

parasitoides

Esquematicamente, eis uma cadeia de hiperparasitismo com três níveis tróficos:

  1. Megoura viciae (criados em pés de feijão) é atacado por Aphidius megourae. À medida que é consumido, o hospedeiro é transformado numa pequena múmia.
  2. Posteriormente, casais de Alloxysta sp. se reproduzem sobre a múmia, botando suas larvas dentro das larvas de A. megourae no interior do hospedeiro primário.
  3. Mais tarde, D. carpenteri ou C. clavata também atacam a múmia e suas larvas atacam as larvas de Alloxysta do nível 2.

Larvas que comem larvas que comem larvas dentro de um hospedeiro. Como isso é possível? Para responder à pergunta, foi usada a análise espectrográfica de um isótopo estável de nitrogênio (N-15), o que permitiu medir o acúmulo de biomassa em cada ponto da cadeia. Sanders e van Veen descobriram que a eficiência energética de super- ou hiperparasitoides é bastante elevada. Na verdade, a eficácia do parasitismo aumenta a cada nível trófico. Uma dessas criaturinhas asquerosas, Dendrocerus carpenteri, alcançou uma taxa de conversão de massa da ordem de 90%. Parasitar parasitas dá uma perda total no hospedeiro, mas é um bom negócio para os hiperparasitoides.

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Por mais nojenta que esse tipo de reprodução pareça, os pesquisadores sugerem que a descoberta de insetos superparasitas pode ser útil como controle biológico de pragas agrícolas. É possível que cadeias semelhantes ocorram naturalmente, mas tenham passado despercebidas até agora. No entanto, para que essa aplicação se torne possível, falta replicar o comportamento observado no laboratório em campo. Vamos ter que sacrificar mais alguns Megoura viciae. Que morte horrível.

Referência
rb2_large_gray25Sanders D, Moser A, Newton J, van Veen FJF. (2016) Trophic assimilation efficiency markedly increases at higher trophic levels in four-level host-parasitoid food chain [Eficiência de assimilação trófica cresce notalvemente em altos níveis tróficos em cadeias hospedeiro-parasitoide de quatro níveis]. Proc. R. Soc. B 283: 20153043. http://dx.doi.org/10.1098/rspb.2015.3043

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