“Eudâmidas ditando seu testamento em seu leito de morte”, gravura de Francesco Bartolozzi, 1765 [via wikimedia]

A Luciano de Samósata devemos o conhecimento do nobre, tocante e certamente excêntrico testamento de Eudâmidas de Corinto.

Esse filósofo, que era extremamente pobre, tinha amizade bastante próxima e íntima — amizade no sentido pleno do termo — com Areteu de Corinto e Caríxenes de Sycion. Encontrando-se em seu leito de morte, ele fez um testamento que, embora pareça ridículo aos valores mundanos, é digno de admiração e respeito daqueles que conhecem o real valor da cordialidade e que podem apreciar sua simples confidência e sinceridade. Dizia o documento:

“Deixo em legado a Areteu o sustento de minha mãe, no desejo de que ele tenha carinho e cuidado por ela nos anos de declínio dela.
“Deixo em legado a Caríxenes a minha filha, para casá-la e para dar a ela a melhor porção [ou dote] que ele possa arranjar para esse fim.
“Caso um dos dois venha a falecer, peço que o outro execute ambos os legados.”

Caríxenes, porém, sobreviveu apenas cinco dias a mais que Eudâmides. Areteu, então, agindo em exata conformidade com o testamento que devia executar, assumiu a parte que cabia ao seu co-executor. Ele sustentou a mãe de Eudâmides e, no devido tempo, encontrou um marido para a filha do falecido. Dos cinco talentos de sua fortuna, ela recebeu dois e a filha dele, outros dois, sendo ambos os casamentos celebrados no mesmo dia. — HARRIS, Virgil McClure. Ancient, Curious and Famous Wills [Testamentos antigos, curiosos e famosos]. Boston: Little, Brown & Co., 1911. pp. 11-12

Entre diversos outros autores, Montaigne [1533-1592] também apresenta o singelo testamento de Eudâmidas como exemplo de fidelidade no seu ensaio Da amizade. Pouco se sabe, porém, da vida do espartano-coríntio Eudâmidas, cujo testamento em si perdeu-se na poeira dos tempos. Assim, é possível que esse caso já fosse lendário na época de Luciano.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...