direções

O carro se aproxima, a janela se abre e o motorista pergunta: “Por favor, amigo, pode me dar uma informação?”. O local e o meio de transporte podem mudar, mas essa cena com um pedido de orientação repete-se desde que o mundo é mundo. Se você acha difícil dar referências em português, agradeça por não falar uma língua australiana que virtualmente não tem termos espaciais.

Não dá pra dizer algo como “Olha, saindo daqui você pega a primeira esquina à esquerda” no meio de uma região selvagem como a situada entre os rios Fitzmaurice e Moyle, no norte da Austrália. Nessa área a sudoeste de Darwin vivem cerca de 2700 aborígenes espalhados por diversas pequenas comunidades. Embora sejam de tribos distintas, esses nativos falam uma lingua franca chamada Murrinhpatha.

murrinhpatha

Considerada altamente polissintética, essa língua ainda é pouco estudada, sendo sua gramática apenas parcialmente entendida. O que se sabe é que a relação social entre os interlocutores pesa muito em alguns contextos e esse é o caso da troca de informações espaciais, como revela estudo recente de Joe Blythe, da Universidade de Melbourne, e seus colaboradores do Kanamkek Yile Ngala Wadeye Aboriginal Languages Centre.

Segundo Blythe, além dos topônimos, as línguas do mundo usam três tipos de referência espacial: a relativa (em sentido lateral: “bola à esquerda da cadeira”, “cadeira à direita do homem”), a intrínseca (em sentido longitudinal: “bola em frente da casa”, “casa atrás do carro”) e a absoluta (a partir de um ponto de referência convencional: “a sudoeste de Darwin”).

Na linguagem Murrinhpatha, porém, não existem termos absolutos como os pontos cardeais nem discriminação entre acima e abaixo. O mais próximo disso são expressões bem mais relativas como adiante e atrás. Embora haja diferenciação entre esquerda/direita, ela é feita apenas de maneira concreta (para diferenciar os lados do corpo).

bape

Segundo os pesquisadores australianos, um problema adicional entre os falantes de Murrinhpatha é a frequente ocorrência de tabus em relação a nomes próprios. Entre as severas restrições, deve-se evitar nomear os sogros e sogras, os irmãos do sexo oposto e os recém-falecidos. Essa limitação também inclui os nomes dos lugares ligados a essas pessoas (se uma aborígene tivesse um irmão recém-falecido chamado Paulo, por exemplo, ela não poderia nem dizer “São Paulo”). Sendo assim, como os falantes de Murrinhpatha se orientam e trocam informações espaciais?

Segundo o estudo publicado em maio  na revista Open Linguintics, os Murrinhpathófonos podem indicar localizações por meio de expressões demonstrativas (inevitáveis são o demonstrativos kanyi = aqui e pangu = lá), de nomes comuns (praia, campo, vale, rio) e, na falta de palavras, dos gestos, essas expressões corporais sempre desprezadas pelos linguistas. Mas a gesticulação também apresenta uma espécie de gramática, pois é socialmente regulada: a escolha de demonstrativos e o uso ou não de gestos indicativos é determinada pelo papel de quem pede ou dá a informação, do conhecimento do falante e do conhecimento de quem fala em relação a quem ouve.

Mawurt

Quando aparecem os gestos — que podem ser feitos com as mãos abertas ou fechadas, o queixo ou a testa e, mais raramente com os próprios lábios — acompanham os demonstrativos proximais (este X, aqui) ou os demonstrativos anafóricos (aquele X que eu já falei).

Enquanto pesquisas linguísticas comuns podem se bastar com a gravação do áudio, Blythe et. al. tiveram que recorrer ao uso do vídeo para registrar e analisar os gestos usados em Murrinhpatha (um exemplo de gesto pode ser visto acima, numa das imagens gravadas). Com base na análise desse material, foram encontradas oito etapas da troca de informações nessa língua:

1. Proposta de vetor por gestualização (quem pergunta ou quem responde indica uma direção aproximada);
2. Descrição da localidade-alvo (que pode ou não ter um nome);
3. Indicação da distância (se próxima ou longe do local de fala);
4. Descrição do caminho (se direto ou sinuoso, por meio de qual via, se há necessidade de atravessar rios, etc);
5. 2ª. Descrição da localidade (quem pede a informação pode chutar uma localidade nesse ponto; se for correto, ok; se não for, ressalta-se os pontos anteriores);
6. Caracterização do destino em relação a pessoas ou outros lugares (quando possível, pode-se descrever locais vizinhos, onde moram pessoas ou clãs);
7. Advinhação (quem pede a informação profere o nome do destino pretendido);
8. Confirmação (quem dá a informação confirma).

Curiosamente, os gestos tendem a aparecer mais em quem pede do que em quem dá a informação. Se parece confuso, pode haver esclarecimentos na forma de gestos ou perguntas adicionais (onde?) entre cada uma dessas etapas. Tal meio de trocar informações espaciais pode parecer ineficaz, mas funciona. Num teste de precisão feito pelos pesquisadores, dois falantes nativos foram capazes de determinar a localização de quatro lugares situados no litoral, a 17 km de distância e dentro de uma faixa de 2 graus a partir do ponto de onde falavam, que fica no interior.

No entanto, essa eficácia e precisão são limitadas pelo pequeno mundo onde vivem os falantes de Murrinhpatha, num canto esquecido do norte da Austrália — para nós seria quase impossível dizer que lugar tão distante é esse sem se referir a um ponto cardeal (norte) em relação a um nome próprio de território conhecido (Austrália).

Embora descrevam Murrinhpatha como uma língua “adirecional”, os pesquisadores ressaltam que isso não configura uma deficiência ou um déficit intelectual dos seus falantes. Pelo contrário, eles consideram que a dependência de gestos, especialmente para a localização, é reflexo de algo mais universal, que deveria ser mais bem estudado pelos linguistas. Afinal, quem nunca fez gestos enquanto dava referências a algum motorista perdido?

Referência
Joe Blythe et. al. Pointing out directions in Murrinhpatha [Apontando direções em Murrinhpatha]. Open Linguistics. Volume 2, Issue 1, Pages 132–159, ISSN (Online) 2300-9969, DOI: 10.1515/opli-2016-0007, May 2016

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